Re:RES: RESAZ: [forum-prof] Fwd: Assembléia Geral da Adufrj-SSind, 30 de agosto de 2007
marccosta
marccosta at terra.com.br
Wed Aug 29 12:52:05 BRT 2007
Cara Maria,
não sou pedagogo, mas sociólogo. Trabalho com pesquisa em educação há cerca de 20 anos. Sei que essa discussão sobre interdisciplinaridade nada tem de nova. Por que será que até hoje pouco vai além da defesa de princípios genéricos ou do eterno anúncio de novos tempos? O problema é que não conheço forma consistente de aplicar seus princípios nos processos de formação. Gostaria de ouvir da boca do Reitor como é que se faz esse negócio de ensino transdisciplinar (isso tem mais a ver com a intenção de alargar o escopo da formação inicial, generalista). Com certeza não é juntando alunos de diferentes inclinações profissionais. Desconfio que tem a ver com o mundo da tecnologia, da aplicação. Mas o conhecimento segue sendo produzido e transmitido disciplinarmente - segundo corpos conceituais estabelecidos, propagados por burocracias e aparatos institucionais específicos.
A imensa maioria das ocupações, especialmente no setor de serviços, tende a não guardar relação direta com a formação nas carreiras tradicionais, universitárias. No entanto, o acesso a essas últimas parece alargar as oportunidades e mesmo a qualificação para tais ocupações, possivelmente pela ampliação dos horizontes culturais e pelo contato mais prolongado com a "cultura científica". Tenho uma filha que fez Nutrição, aqui na UFRJ, e hoje gerencia um restaurante. Seu trabalho é fundamentalmente administrativo. Pouco da tecnicalidade da área que ela aprendeu na faculdade deve estar sendo posto em uso, mas estou convencido que ela se beneficia dos quatro anos de ralação na UFRJ e esse é um diferencial. Há pesquisas na Inglaterra mostrando bem esse quadro.
Por outro lado, paira sempre a nuvem da necessidade de ajustarmos funcionalmente a configuração do ensino às demandas do mercado de trabalho. Essa sincronia é praticamente impossível (ainda bem) e a sociologia da educação o tem demostrado desde os anos 70 (Randall Collins).
Por isso - e por outras razões - desconfio dessa pressa toda em definir mudanças tão profundas, mas advindas de posições ainda nebulosas.
Abs,
Marcio.
De:"Maria A. Silva" maria.a.dasilva at terra.com.br
Para:"Marcio da Costa" marcioc at pobox.com
Cópia:forum-prof at listas.if.ufrj.br,"Maria A. Silva" masilva1956 at uol.com.br
Data:Tue, 28 Aug 2007 19:52:53 -0300
Assunto:RES: RESAZ: [forum-prof] Fwd: Assembléia Geral da Adufrj-SSind, 30 de agosto de 2007
>
> Meu caro Márcio:
>
> Sempre corro o risco de parecer antipática quando digo coisas como esta que
> direi a seguir.
> Tudo bem, assumo a antipatia.
> Estamos na era dos pedagogos.
> Não tenho nada contra a Pedagogia, afinal toda área de atuação tem seus prós
> e contras.
> Só que atualmente estamos vivenciando o predomínio dos contras.
> Os conceitos de "ensino comum", interdisciplinaridade, transdisciplinaridade
> & cia - os dois primeiros existentes desde a 2a Guerra Mundial - só foram
> descobertos pela Pedagogia no fim do século passado.
> Antes integravam as discussões acadêmicas das Ciências Sociais e foram
> amplamente discutidas e aplicadas de diferentes formas, sobretudo nos
> Estados Unidos.
> Desde que a Pedagogia incorporou a questão, as propostas se radicalizaram.
> A proposta do MEC ao instituir o CONAES era privilegiar a participação de
> pedagogos no processo de avaliação das IES.
> Isso me assustou desde o início.
> A criação de um Instituto Superior desvinculado de qualquer centro, agindo
> como célula autônoma, pode querer refletir essa nova postura.
>
> Abraço,
> Maria Aparecida
>
> Letras UFRJ
>
> P.S.: Brevemente estarei publicando comentários a respeito no blog
> Observatório da Universidade.
>
>
> -----Mensagem original-----
> De: forum-prof-bounces at if.ufrj.br [mailto:forum-prof-bounces at if.ufrj.br] Em
> nome de Marcio da Costa
> Enviada em: terça-feira, 28 de agosto de 2007 19:15
> Para: forum-prof at listas.if.ufrj.br
> Cc: Uniaberta
> Assunto: Re: RESAZ: [forum-prof] Fwd: Assembléia Geral da Adufrj-SSind, 30
> de agosto de 2007
>
> Colegas,
> mudo um pouco, mas só um pouco, de assunto.
> Recebi e demos início à discussão do Projeto Reuni na UFRJ em minha unidade.
>
> Assinalo que concordo, de maneira geral com as diretrizes - ampliação e
> democratização do acesso. Ressalvo o que me parece um vazio na moda - a tal
> da transdisciplinaridade, apesar de simpatizar muito com a idéia do basicão.
>
> Concordo com a idéia de levar tudo - ou quase - para o Fundão. Em suma,
> tenho a maior boa vontade com a proposta, mas sinceramente, não dá para
> aceitar essa tentativa de enfiar pela goela o pacote, sem discussões com
> razoável profundidade. Um projeto de tal magnitude - mesmo que não
> enfrentando questões cruciais da carreira e da falta de responsabilização
> geral - não pode ser deliberado a toque de caixa, especialmente com um
> projeto tão incipiente, tão indefinido quanto o apresentado. Essa forma
> açodada apenas alimenta as posições alarmistas e paranóicas. Sei que o MEC
> também está pressionando, mas não é possível que o Reitor da UFRJ não seja
> capaz de ponderar por um pouco de cautela e sensatez.
> Por exemplo, para minha unidade, a proposta é radical: extinção e criação de
> um Instituto Superior de Educação, congregando as licenciaturas. Não me
> oponho a criarmos uma grande unidade de formação de professores, mas do
> jeito que a proposta está, é apenas um nome. E um nome com significado
> inadequado, no caso do Brasil. Os institutos superiores de educação, em
> nosso caso, são uma alternativa às "escolas normais", não às faculdades de
> educação. Excluem a pesquisa e adquiriram a má fama de terem sido
> implantados em instituições caça-níquel, de baixa reputação. É isso que a
> UFRJ propõe? E por que isso de criar mais uma unidade à parte, separada dos
> centros, especialmente do que congrega as ciências humanas? Nada disso está
> previsto ou explicado na proposta em pauta. Muitas outtras coisas estão
> apenas rascunhadas, como mostra o abrupto final da proposta, que lista
> unidades da UFRJ fora do Fundão ou da Praia e, aparentemente, não sabe o que
> fazer com eles. O que fazer com a previsível insuficiência de recursos para
> implantação da proposta completa? O que será priorizado? Qual a consistência
> da proposta, caso sua implemnentação não seja integral? Alguém fez
> simulação?
> Em suma, aprovamos na FE uma proposta de defender, ao menos até o fim do
> ano, o prazo para discussão e esclarecimento da proposta.
> Abs,
> Marcio da Costa.
>
>
>
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