RES: [forum-prof] Comentáriossobre o MANIFESTO por Roberto Salmeron

Maria A. Silva maria.a.dasilva at terra.com.br
Wed Aug 22 15:38:12 BRT 2007


 
A Europa é só a França?
Parece-me que lá, apesar de toda essa formação "holística", também existe o
problema de integração dos formados ao mercado de trabalho.
Afinal, as universidades européias ainda formam para o mercado.
Há que se considerar, também, o fato de o europeu "respirar" cultura, em
todos os sentidos.
Eles têm o quê e onde encontrar, da forma mais fácil.
Além de poderem dispor de grandes editoras, grandes bibliotecas.
Grandes pensadores, grandes centros de estudos.
E governos não tão grandes, mas sem dúvida bem maiores do que os nossos.

Maria A. Silva
Letras UFRJ
 

-----Mensagem original-----
De: forum-prof-bounces at if.ufrj.br [mailto:forum-prof-bounces at if.ufrj.br] Em
nome de lilia at ov.ufrj.br
Enviada em: quarta-feira, 22 de agosto de 2007 14:27
Para: forum-prof at listas.if.ufrj.br
Assunto: [forum-prof] Comentáriossobre o MANIFESTO por Roberto Salmeron

Sociedade Brasileira de Física
  	Boletim [005/2007]
  	Comentários sobre o MANIFESTO DA SBF A REFORMA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR
É URGENTE (por Roberto Salmeron)

Desejo inicialmente dar meus parabéns à SBF pela iniciativa de propor debate
sobre um dos assuntos mais importantes e mais graves de nosso Pais: o ensino
e a pesquisa.

O mundo avançado progride mais que o Brasil. Se não fizermos com urgência
uma reforma no ensino, não teremos nenhuma chance de sermos um pais
competitivo em nível internacional. Precisamos dessa reforma, tomando como
referência o que há de melhor em todos os níveis, em ensino, em formação
profissional e em formação intelectual do cidadão.

Já se tornou lugar comum dizer que o nível de educação e de formação
profissional de um povo decide de seu futuro, embora muita gente não alcance
as implicações dessa afirmação. Não é por acaso que os povos mais avançados
economicamente e socialmente são também os mais avançados cientificamente e
no nível geral de formação intelectual. Essas sociedades exigem dos governos
uma educação de qualidade para suas crianças e seus jovens. O assunto é
acompanhado e debatido em camadas amplas da população e em entidades de
naturezas diferentes. Por exemplo, os sindicatos dos professores, além de
defender seus interesses de classe, também defendem e propõem iniciativas
para elevar o nível do ensino.

A importância do assunto é compreendida pela sociedade, que acompanha e
apóia conscientemente as iniciativas e as despesas. Vejamos alguns exemplo.
Na França, 24% do orçamento anual do pais é para educação e pesquisa, isto
é, um quarto do dinheiro público! Apesar disso, as discussões e propostas
para melhorar o ensino em todos os níveis e a qualidade da pesquisa é
permanente. O próprio governo, preocupado com a capacidade de competição ao
nível internacional, pede às universidades sugestões para melhora constante.

Na Europa, os paises de menor população, como Suíça, Bélgica, Holanda,
Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega têm, cada um deles, produção
científica maior que o Brasil; e tem indústrias na ponta da tecnologia. É
bem sabido que nesses paises não há analfabetos. A Finlândia é o pais com o
melhor sistema de ensino de crianças e adolescente do mundo: no nível
equivalente aos nossos cursos fundamental e colegial a reprovação é de
somente 2%. O finlandês é o povo que mais lê: 90% da população lê pelo menos
um jornal por dia.

O ENSINO NO BRASIL

Os paises desenvolvidos não mantém a educação e a pesquisa estáticas,
informam-se em permanência sobre melhorias introduzidas pelos outros para
aperfeiçoarem seus próprios sistemas. Na Europa procuram colaborar entre si,
pois é necessário que na União Européia todos os paises tenham bom ensino e
pesquisa competitiva.

CURSOS FUNDAMENTAL E COLEGIAL

Esses cursos no Brasil estão entre os de mais baixo nível no mundo. Na
França, na Suíça, na Alemanha, os estudantes no ano equivalente ao nosso 3°
ano colegial, antes de ingressarem na universidade, estudam: em matemática,
análise (uma das deficiências de nossos cursos, até em nível universitário),
cálculo vetorial, cálculo diferencial e integral, estatística, e aplicações;
em física, utilizam cálculo vetorial, diferencial e integral, estudam a
teoria da relatividade restrita, incluisive aprendem a calcular com fóton de
massa zero, em eletromagnetismo estudam correntes alternadas com grandezas
vetoriais.

Não tenho dúvida de que a maioria dos estudantes que terminaram o segundo
ano de nossas universidades teria dificuldade em resolver problemas que na
França são propostos no exame de fim de curso colegial, chamado
"baccalauréat".

Ao tratarmos desta questão, não podemos esquecer um problema social
importante:
os baixos salários dos professores, que são obrigados a dar de 30 a 40 horas
de aulas por semana, para poderem sustentar a família. E obviamente não têm
tempo nem energia para aumentar seus conhecimentos. Em contraste, nos paises
avançados da Europa a profissão de professor ou professora é valorizada. Na
Suíça, uma professora de curso fundamental ganha mais que um engenheiro, a
diferença de salários chegando até a 50%. Além disso, como em outros países,
os professores têm direito a um semestre de licença para se aperfeiçoarem,
de seis em seis anos.

Além do nível dos cursos, há outra diferença fundamental entre os estudos
nos países europeus e no Brasil: é no nível de exigência de trabalho do
estudante.
Na Europa, os alunos passam o dia na escola, desde o jardim de infância, nos
ursos fundamental e colegial, e além disso levam trabalho para fazerem em
casa; mais uma a duas horas de trabalho, e no equivalente ao nosso curso
colegial, mais de duas horas por dia.

Temos de levar avante uma reforma no ensino fundamental e colegial e no
ensino superior; é impossível fazer somente uma dessas reformas, sem fazer a
outra.

Essa informações resumidas mostram o quanto temos ainda por fazer.

CURSOS SUPERIORES

Incontestavelmente nossas universidades estão progredindo, temos muita gente
bem formada em todos os domínios, temos um número razoável de universidades
com bons departamentos de Ciências e de Engenharia, boas Faculdades de
Medicina, etc. mas o número de pessoas competentes que formamos é muito
inferior do que deveríamos formar para que o País esteja apto a enfrentar a
concorrência internacional.

Nos cursos superiores também deveríamos tomar como referência os melhores
cursos do exterior. Esses cursos têm uma característica em comum: os
estudantes têm nos dois primeiros anos cursos de formação básica de nível
elevado, em matérias fundamentais, sem nenhuma especialização, que permitem
depois um leque de escolha de cursos profissionais. Isso ocorre em ciências
humanas, ciências naturais e exatas, medicina, odontologia, farmácia,
engenharia.

Nossas escolas de ciências e de tecnologias preparam os estudantes para
trabalharem em atividade que já existem, mas não oferecem uma cultura
científica de base que permita ao jovem lançar-se com segurança em campos
novos, procurar desafios. Vejamos o que ocorre com os cursos de ciência e de
engenharia, fundamentais para pesquisa tecnológica de vanguarda.

Quanto aos cursos de ciências, apesar da boa vontade e dos esforços de
muitos de nossos colegas dedicados, os cursos não estão adaptados a preparar
jovens para enfrentarem a competição tecnológica internacional. A solução
não depende da boa vontade e do esforço individual dos docentes, depende da
estrutura do curso e da estrutura do ensino superior e da universidade.

Quanto à engenharia brasileira, ela é de bom nível nos ramos em que atua,
não há necessidade de darmos exemplos. Mas está faltando um tipo de
engenheiro, com perfil científico. Nossas escolas de engenharia, mesmo as de
maior prestígio, não formam engenheiros capazes de enfrentar os desafios
tecnológicos para o futuro. A situação é grave, porque nossos empresários
não procuram cientistas, procuram engenheiros. Então nossos engenheiros
deveriam estar preparados para fazer o que no exterior é feito por químicos,
físicos, matemáticos, mas dificilmente poderão enfrentar essas tarefas sem
uma base científica sólida, necessária. Essa deficiência seria suprida se o
estudante tivesse um bom curso de ciências antes de estudar engenharia. Isso
ocorre em muitos lugares, como em Lisboa com o Instituto Superior Técnico, e
na França onde os estudantes, para ingressarem nas escolas de engenharia,
são obrigados a estudar dois anos de "preparação para as grandes escolas",
nos quais estudam intensamente somente matemática, física e química,
qualquer que seja o ramo de engenharia que queiram fazer no futuro, adquirem
excelente formação que lhes permite seguir qualquer ramo de engenharia ou
uma carreira científica.

É importante reter que na França todos os estudantes que queiram ser
engenheiros têm praticamente o mesmo curso de matemática, de física e de
química, com pequenas diferenças, nos dois anos de "preparação para as
grandes escolas". Os que desejam ser engenheiros civis, ou de produção, têm
estudar eletromagnetismo e equações de Maxwell como os que desejam ser
engenheiros eletrônicos.

Há Faculdades de Arquitetura nas quais os estudantes durante os três
primeiros anos não tem cursos de arquitetura, mas sim de artes plásticas. No
quarto ano começam arquitetura ou arquitetura de interior.

Contrariamente a essa orientação, na maioria de nossas escolas de engenharia
os estudantes fazem exames vestibulares diferenciados para diferentes ramos
de engenharia, o que é absurdo. Isso dá ao estudante a idéia de que não
precisa ter cultura, que tem de ser "prático " e "saber consultar tabelas
para trabalhar", dando-lhe precocemente a impressão de que está se
"especializando".

Eu gostaria de dizer que começamos a Universidade de Brasília, há 45 anos,
como cursos básicos antes de cursos profissionais. Os estudantes cursavam
dois anos de formação básica, e no terceiro ano escolhiam a carreira que
queriam seguir.
Por exemplo, havia uma formação básica engenharia, física, matemática,
química, geociências, astronomia; outra formação básica era medicina,
biologia, odontologia, psicologia; havia formações básicas em ciências
humanas, em artes.
Mas um estudante podia passar de uma formação básica para outra,
preparando-se e submetendo-se a uma prova. Havia flexibilidade, mas o
estudante tinha de ser ativo.

Vários de nossos físicos e matemáticos tinham iniciado o curso na UnB com a
intenção de fazer engenharia ou economia.

Essa estrutura areja a cabeça dos estudantes, eles ficam estimulados e
pensar em várias possibilidades para seus futuros e também em pensar porque
estão estudando o que estão estudando. Em Brasília, os estudantes nos
procuravam para pedir informações sobre os estudos futuros. Por exemplo,
estudantes que desejavam ser engenheiros queriam saber porque tinham o mesmo
curso de matemática que os colegas que queriam ser matemáticos; estudantes
que queriam ser médicos queriam saber porque estudavam biologia, matemática,
física e química e não estudavam anatomia no primeiro ano como estudavam
alunos de outras universidades.

Essa estrutura é importante, mas a realização prática é difícil por causa
das previsões que precisam ser feitas apara atender aos estudantes no
terceiro ano.

É importante que se estimule a tomada de consciência desse problema, com
amplas discussões, com participação de grupos nas universidades, das
sociedades científicas e das sociedades profissionais

Essa estrutura inicial da UnB foi introduzida pelo nosso grande educador
Anísio Teixeira, que já pensava nessas questões desde 1935. Juscelino
Kubitschek tinha grande admiração por Anísio Teixeira: convidou-o para
organizar o ensino fundamental e profissional em Brasília, e depois para
organizar a Universidade.
Juscelino e seu ministro da Educação, Clóvis Salgado, ficaram impressionados
com as idéias de Anísio, e tinham decidido que a estrutura que ele propôs
para a Universidade de Brasília seria adotada com uma reforma da
ex-Universidade do Brasil, atualmente UFRJ, quando se mudasse para a Cidade
Universitária na Ilha do Fundão, onde está efetivamente instalada.

Mostrei a diferença no nível de exigência, entre a Europa e o Brasil, nos
trabalhos dos alunos dos cursos fundamental e colegial. Essa diferença de
exigência dos trabalhos dos estudantes é imensa nos cursos universitários,
produz choque em nossos jovens que vêm estudar em escolas superiores
européias.
O estudante universitário brasileiro trabalha pouco, não adquire o hábito de
estudar sozinho, não estuda por livros, não é educado a saber demonstrar as
teorias nos assuntos teóricos, não faz muitos exercícios práticos, não se
educa em tomar iniciativas. Paradoxalmente, o estudante universitário
brasileiro, que tem o hábito de protestar às vezes de modo incompreensível e
contra seus próprios interesses, no fundo é infantilizado.

Temos de mudar muitos aspectos do ensino superior. Um deles é de valorizar o
ensino nas universidades. Devido à competição para postos de pesquisador do
CNPq, freqüentemente os docentes de maior experiência se vêem obrigados a se
concentrar em pesquisa, deixando o ensino para os mais jovens menos
experientes. Em contraste, na Europa e nos Estados Unidos há a tradição de
que os cursos do primeiro ano são ministrados pelos professores de maior
experiência, inclusive detentores do Prêmio Nobel.

Este assunto precisa ser muito debatido, há sobre ele incompreensões que
surpreendem. A reforma no ensino exige implicitamente financiamento, pois
serão necessárias novas instalações, laboratórios, e ainda mais
necessariamente para a pesquisa. No entanto, no Decreto N° 6.096, de 24 de
abril de 2007, no qual o Presidente da República institui o Programa de
Apoio a Planos de Reestruturação e de Expansão das Universidades Federais ¬
REUNI, termina com o Art. 7° : "As despesas decorrentes deste decreto
correrão à conta das dotações orçamentárias anualmente consignadas ao
Ministério da Educação". Esse Art. 7° não encoraja otimismo. Fazer reforma
importante sem verba?

10 de agosto de 2007

Roberto Salmeron


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