[forum-prof] Comentários sobre o MANIFESTO por Roberto Salmeron
Luis Paulo Vieira Braga
lpbraga at im.ufrj.br
Wed Aug 22 17:56:34 BRT 2007
É uma lástima ver uma personalidade do calibre do prof. Salmeron (83 anos)
ser utilizada como garoto propaganda do REUNI. Ainda bem que ao final de seu
texto ele deixa perceber que o REUNI não é bem aquilo que ele gostaria que
fosse. Suas palavras finais - Fazer reforma importante sem verba ? -
demonstram que o Brasil ainda não é um país sério...
On Wed, 22 Aug 2007 14:26:43 -0300, lilia wrote
> Sociedade Brasileira de Física
> Boletim [005/2007]
> Comentários sobre o MANIFESTO DA SBF A REFORMA DA EDUCAÇÃO
> SUPERIOR É URGENTE
> (por Roberto Salmeron)
>
> Desejo inicialmente dar meus parabéns à SBF pela iniciativa de
> propor debate sobre um dos assuntos mais importantes e mais graves
> de nosso Pais: o ensino e a pesquisa.
>
> O mundo avançado progride mais que o Brasil. Se não fizermos com
> urgência uma reforma no ensino, não teremos nenhuma chance de sermos
> um pais competitivo em nível internacional. Precisamos dessa reforma,
> tomando como referência o que há de melhor em todos os níveis, em
> ensino, em formação profissional e em formação intelectual do cidadão.
>
> Já se tornou lugar comum dizer que o nível de educação e de formação
> profissional de um povo decide de seu futuro, embora muita gente não
> alcance as implicações dessa afirmação. Não é por acaso que os povos
> mais avançados economicamente e socialmente são também os mais
> avançados cientificamente e no nível geral de formação intelectual.
> Essas sociedades exigem dos governos uma educação de qualidade para
> suas crianças e seus jovens. O assunto é acompanhado e debatido em
> camadas amplas da população e em entidades de naturezas diferentes.
> Por exemplo, os sindicatos dos professores, além de defender seus
> interesses de classe, também defendem e propõem iniciativas para
> elevar o nível do ensino.
>
> A importância do assunto é compreendida pela sociedade, que
> acompanha e apóia conscientemente as iniciativas e as despesas.
> Vejamos alguns exemplo. Na França, 24% do orçamento anual do pais é
> para educação e pesquisa, isto é, um quarto do dinheiro público!
> Apesar disso, as discussões e propostas para melhorar o ensino em
> todos os níveis e a qualidade da pesquisa é permanente. O próprio
> governo, preocupado com a capacidade de competição ao nível
> internacional, pede às universidades sugestões para melhora constante.
>
> Na Europa, os paises de menor população, como Suíça, Bélgica,
> Holanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega têm, cada um deles,
> produção científica maior que o Brasil; e tem indústrias na ponta
> da tecnologia. É bem sabido que nesses paises não há analfabetos. A
> Finlândia é o pais com o melhor sistema de ensino de crianças e
> adolescente do mundo: no nível equivalente aos nossos cursos
> fundamental e colegial a reprovação é de somente 2%. O finlandês é o
> povo que mais lê: 90% da população lê pelo menos um jornal por dia.
>
> O ENSINO NO BRASIL
>
> Os paises desenvolvidos não mantém a educação e a pesquisa estáticas,
> informam-se em permanência sobre melhorias introduzidas pelos outros
> para aperfeiçoarem seus próprios sistemas. Na Europa procuram
> colaborar entre si, pois é necessário que na União Européia todos os
> paises tenham bom ensino e pesquisa competitiva.
>
> CURSOS FUNDAMENTAL E COLEGIAL
>
> Esses cursos no Brasil estão entre os de mais baixo nível no mundo.
> Na França, na Suíça, na Alemanha, os estudantes no ano equivalente
> ao nosso 3° ano colegial, antes de ingressarem na universidade,
> estudam: em matemática, análise
> (uma das deficiências de nossos cursos, até em nível universitário),
> cálculo vetorial, cálculo diferencial e integral, estatística, e
> aplicações; em física, utilizam cálculo vetorial, diferencial e
> integral, estudam a teoria da relatividade restrita, incluisive
> aprendem a calcular com fóton de massa zero, em eletromagnetismo
> estudam correntes alternadas com grandezas vetoriais.
>
> Não tenho dúvida de que a maioria dos estudantes que terminaram o
> segundo ano de nossas universidades teria dificuldade em resolver
> problemas que na França são propostos no exame de fim de curso
> colegial, chamado "baccalauréat".
>
> Ao tratarmos desta questão, não podemos esquecer um problema social
importante:
> os baixos salários dos professores, que são obrigados a dar de 30 a
> 40 horas de aulas por semana, para poderem sustentar a família. E
> obviamente não têm tempo nem energia para aumentar seus
> conhecimentos. Em contraste, nos paises avançados da Europa a
> profissão de professor ou professora é valorizada. Na Suíça, uma
> professora de curso fundamental ganha mais que um engenheiro, a
> diferença de salários chegando até a 50%. Além disso, como em outros
> países, os professores têm direito a um semestre de licença para se
> aperfeiçoarem, de seis em seis anos.
>
> Além do nível dos cursos, há outra diferença fundamental entre os
> estudos nos países europeus e no Brasil: é no nível de exigência de
> trabalho do estudante. Na Europa, os alunos passam o dia na escola,
> desde o jardim de infância, nos ursos fundamental e colegial, e
> além disso levam trabalho para fazerem em casa; mais uma a duas
> horas de trabalho, e no equivalente ao nosso curso colegial, mais de
> duas horas por dia.
>
> Temos de levar avante uma reforma no ensino fundamental e colegial e
> no ensino superior; é impossível fazer somente uma dessas reformas,
> sem fazer a outra.
>
> Essa informações resumidas mostram o quanto temos ainda por fazer.
>
> CURSOS SUPERIORES
>
> Incontestavelmente nossas universidades estão progredindo, temos
> muita gente bem formada em todos os domínios, temos um número
> razoável de universidades com bons departamentos de Ciências e de
> Engenharia, boas Faculdades de Medicina, etc. mas o número de
> pessoas competentes que formamos é muito inferior do que deveríamos
> formar para que o País esteja apto a enfrentar a concorrência internacional.
>
> Nos cursos superiores também deveríamos tomar como referência os
> melhores cursos do exterior. Esses cursos têm uma característica em
> comum: os estudantes têm nos dois primeiros anos cursos de formação
> básica de nível elevado, em matérias fundamentais, sem nenhuma
> especialização, que permitem depois um leque de escolha de cursos
> profissionais. Isso ocorre em ciências humanas, ciências naturais e
> exatas, medicina, odontologia, farmácia, engenharia.
>
> Nossas escolas de ciências e de tecnologias preparam os estudantes para
> trabalharem em atividade que já existem, mas não oferecem uma cultura
> científica de base que permita ao jovem lançar-se com segurança em campos
> novos, procurar desafios. Vejamos o que ocorre com os cursos de
> ciência e de engenharia, fundamentais para pesquisa tecnológica de
vanguarda.
>
> Quanto aos cursos de ciências, apesar da boa vontade e dos esforços
> de muitos de nossos colegas dedicados, os cursos não estão adaptados
> a preparar jovens para enfrentarem a competição tecnológica
> internacional. A solução não depende da boa vontade e do esforço
> individual dos docentes, depende da estrutura do curso e da
> estrutura do ensino superior e da universidade.
>
> Quanto à engenharia brasileira, ela é de bom nível nos ramos em que
> atua, não há necessidade de darmos exemplos. Mas está faltando um
> tipo de engenheiro, com perfil científico. Nossas escolas de
> engenharia, mesmo as de maior prestígio, não formam engenheiros
> capazes de enfrentar os desafios tecnológicos para o futuro. A
> situação é grave, porque nossos empresários não procuram cientistas,
> procuram engenheiros. Então nossos engenheiros deveriam estar
> preparados para fazer o que no exterior é feito por químicos,
> físicos, matemáticos, mas dificilmente poderão enfrentar essas
> tarefas sem uma base científica sólida, necessária. Essa deficiência
> seria suprida se o estudante tivesse um bom curso de ciências antes
> de estudar engenharia. Isso ocorre em muitos lugares, como em Lisboa
> com o Instituto Superior Técnico, e na França onde os estudantes,
> para ingressarem nas escolas de engenharia, são obrigados a estudar
> dois anos de "preparação para as grandes escolas", nos quais estudam
> intensamente somente matemática, física e química, qualquer que seja
> o ramo de engenharia que queiram fazer no futuro, adquirem excelente
> formação que lhes permite seguir qualquer ramo de engenharia ou uma
> carreira científica.
>
> É importante reter que na França todos os estudantes que queiram ser
> engenheiros têm praticamente o mesmo curso de matemática, de física
> e de química, com pequenas diferenças, nos dois anos de "preparação
> para as grandes escolas". Os que desejam ser engenheiros civis, ou
> de produção, têm estudar eletromagnetismo e equações de Maxwell como
> os que desejam ser engenheiros eletrônicos.
>
> Há Faculdades de Arquitetura nas quais os estudantes durante os três
> primeiros anos não tem cursos de arquitetura, mas sim de artes
> plásticas. No quarto ano começam arquitetura ou arquitetura de interior.
>
> Contrariamente a essa orientação, na maioria de nossas escolas de
> engenharia os estudantes fazem exames vestibulares diferenciados
> para diferentes ramos de engenharia, o que é absurdo. Isso dá ao
> estudante a idéia de que não precisa ter cultura, que tem de ser
> "prático " e "saber consultar tabelas para trabalhar", dando-lhe
> precocemente a impressão de que está se "especializando".
>
> Eu gostaria de dizer que começamos a Universidade de Brasília, há 45
> anos, como cursos básicos antes de cursos profissionais. Os
> estudantes cursavam dois anos de formação básica, e no terceiro ano
> escolhiam a carreira que queriam seguir. Por exemplo, havia uma
> formação básica engenharia, física, matemática, química, geociências,
> astronomia; outra formação básica era medicina, biologia,
> odontologia, psicologia; havia formações básicas em ciências humanas,
> em artes. Mas um estudante podia passar de uma formação básica para
> outra, preparando-se e submetendo-se a uma prova. Havia
> flexibilidade, mas o estudante tinha de ser ativo.
>
> Vários de nossos físicos e matemáticos tinham iniciado o curso na
> UnB com a intenção de fazer engenharia ou economia.
>
> Essa estrutura areja a cabeça dos estudantes, eles ficam estimulados
> e pensar em várias possibilidades para seus futuros e também em
> pensar porque estão estudando o que estão estudando. Em Brasília, os
> estudantes nos procuravam para pedir informações sobre os estudos
> futuros. Por exemplo, estudantes que desejavam ser engenheiros
> queriam saber porque tinham o mesmo curso de matemática que os
> colegas que queriam ser matemáticos; estudantes que queriam ser
> médicos queriam saber porque estudavam biologia, matemática, física
> e química e não estudavam anatomia no primeiro ano como estudavam
> alunos de outras universidades.
>
> Essa estrutura é importante, mas a realização prática é difícil por
> causa das previsões que precisam ser feitas apara atender aos
> estudantes no terceiro ano.
>
> É importante que se estimule a tomada de consciência desse problema,
> com amplas discussões, com participação de grupos nas universidades,
> das sociedades científicas e das sociedades profissionais
>
> Essa estrutura inicial da UnB foi introduzida pelo nosso grande
> educador Anísio Teixeira, que já pensava nessas questões desde 1935.
> Juscelino Kubitschek tinha grande admiração por Anísio Teixeira:
> convidou-o para organizar o ensino fundamental e profissional em
> Brasília, e depois para organizar a Universidade. Juscelino e seu
> ministro da Educação, Clóvis Salgado, ficaram impressionados com as
> idéias de Anísio, e tinham decidido que a estrutura que ele propôs
> para a Universidade de Brasília seria adotada com uma reforma da ex-
> Universidade do Brasil, atualmente UFRJ, quando se mudasse para a
> Cidade Universitária na Ilha do Fundão, onde está efetivamente instalada.
>
> Mostrei a diferença no nível de exigência, entre a Europa e o Brasil,
> nos trabalhos dos alunos dos cursos fundamental e colegial. Essa
> diferença de exigência dos trabalhos dos estudantes é imensa nos
> cursos universitários, produz choque em nossos jovens que vêm
> estudar em escolas superiores européias. O estudante universitário
> brasileiro trabalha pouco, não adquire o hábito de estudar sozinho,
> não estuda por livros, não é educado a saber demonstrar as teorias
> nos assuntos teóricos, não faz muitos exercícios práticos, não se educa
> em tomar iniciativas. Paradoxalmente, o estudante universitário
> brasileiro, que tem o hábito de protestar às vezes de modo
> incompreensível e contra seus próprios interesses, no fundo é infantilizado.
>
> Temos de mudar muitos aspectos do ensino superior. Um deles é de
> valorizar o ensino nas universidades. Devido à competição para
> postos de pesquisador do CNPq, freqüentemente os docentes de maior
> experiência se vêem obrigados a se concentrar em pesquisa, deixando
> o ensino para os mais jovens menos experientes. Em contraste, na
> Europa e nos Estados Unidos há a tradição de que os cursos do
> primeiro ano são ministrados pelos professores de maior experiência,
> inclusive detentores do Prêmio Nobel.
>
> Este assunto precisa ser muito debatido, há sobre ele incompreensões
> que surpreendem. A reforma no ensino exige implicitamente
> financiamento, pois serão necessárias novas instalações,
> laboratórios, e ainda mais necessariamente para a pesquisa. No
> entanto, no Decreto N° 6.096, de 24 de abril de 2007, no qual o
> Presidente da República institui o Programa de Apoio a Planos de
Reestruturação
> e de Expansão das Universidades Federais ¬ REUNI, termina com o Art.
> 7° : "As despesas decorrentes deste decreto correrão à conta das
> dotações orçamentárias anualmente consignadas ao Ministério da
> Educação". Esse Art. 7° não encoraja otimismo. Fazer reforma
> importante sem verba?
>
> 10 de agosto de 2007
>
> Roberto Salmeron
>
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