[forum-prof] Comentários sobre o MANIFESTO por Roberto Salmeron

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Wed Aug 22 14:26:43 BRT 2007


Sociedade Brasileira de Física
  	Boletim [005/2007]
  	Comentários sobre o MANIFESTO DA SBF A REFORMA DA EDUCAÇÃO SUPERIOR É URGENTE
(por Roberto Salmeron)

Desejo inicialmente dar meus parabéns à SBF pela iniciativa de propor debate
sobre um dos assuntos mais importantes e mais graves de nosso Pais: o ensino e
a pesquisa.

O mundo avançado progride mais que o Brasil. Se não fizermos com urgência uma
reforma no ensino, não teremos nenhuma chance de sermos um pais competitivo em
nível internacional. Precisamos dessa reforma, tomando como referência o que há
de melhor em todos os níveis, em ensino, em formação profissional e em formação
intelectual do cidadão.

Já se tornou lugar comum dizer que o nível de educação e de formação
profissional de um povo decide de seu futuro, embora muita gente não alcance as
implicações dessa afirmação. Não é por acaso que os povos mais avançados
economicamente e socialmente são também os mais avançados cientificamente e no
nível geral de formação intelectual. Essas sociedades exigem dos governos uma
educação de qualidade para suas crianças e seus jovens. O assunto é acompanhado
e debatido em camadas amplas da população e em entidades de naturezas
diferentes. Por exemplo, os sindicatos dos professores, além de defender seus
interesses de classe, também defendem e propõem iniciativas para elevar o nível
do ensino.

A importância do assunto é compreendida pela sociedade, que acompanha e apóia
conscientemente as iniciativas e as despesas. Vejamos alguns exemplo. Na
França, 24% do orçamento anual do pais é para educação e pesquisa, isto é, um
quarto do dinheiro público! Apesar disso, as discussões e propostas para
melhorar o ensino em todos os níveis e a qualidade da pesquisa é permanente. O
próprio governo, preocupado com a capacidade de competição ao nível
internacional, pede às universidades sugestões para melhora constante.

Na Europa, os paises de menor população, como Suíça, Bélgica, Holanda,
Dinamarca, Suécia, Finlândia, Noruega têm, cada um deles, produção científica
maior que o Brasil; e tem indústrias na ponta da tecnologia. É bem sabido que
nesses paises não há analfabetos. A Finlândia é o pais com o melhor sistema de
ensino de crianças e adolescente do mundo: no nível equivalente aos nossos
cursos fundamental e colegial a reprovação é de somente 2%. O finlandês é o
povo que mais lê: 90% da população lê pelo menos um jornal por dia.

O ENSINO NO BRASIL

Os paises desenvolvidos não mantém a educação e a pesquisa estáticas,
informam-se em permanência sobre melhorias introduzidas pelos outros para
aperfeiçoarem seus próprios sistemas. Na Europa procuram colaborar entre si,
pois é necessário que na União Européia todos os paises tenham bom ensino e
pesquisa competitiva.

CURSOS FUNDAMENTAL E COLEGIAL

Esses cursos no Brasil estão entre os de mais baixo nível no mundo. Na França,
na Suíça, na Alemanha, os estudantes no ano equivalente ao nosso 3° ano
colegial, antes de ingressarem na universidade, estudam: em matemática, análise
(uma das deficiências de nossos cursos, até em nível universitário), cálculo
vetorial, cálculo diferencial e integral, estatística, e aplicações; em física,
utilizam cálculo vetorial, diferencial e integral, estudam a teoria da
relatividade restrita, incluisive aprendem a calcular com fóton de massa zero,
em eletromagnetismo estudam correntes alternadas com grandezas vetoriais.

Não tenho dúvida de que a maioria dos estudantes que terminaram o segundo ano de
nossas universidades teria dificuldade em resolver problemas que na França são
propostos no exame de fim de curso colegial, chamado "baccalauréat".

Ao tratarmos desta questão, não podemos esquecer um problema social importante:
os baixos salários dos professores, que são obrigados a dar de 30 a 40 horas de
aulas por semana, para poderem sustentar a família. E obviamente não têm tempo
nem energia para aumentar seus conhecimentos. Em contraste, nos paises
avançados da Europa a profissão de professor ou professora é valorizada. Na
Suíça, uma professora de curso fundamental ganha mais que um engenheiro, a
diferença de salários chegando até a 50%. Além disso, como em outros países, os
professores têm direito a um semestre de licença para se aperfeiçoarem, de seis
em seis anos.

Além do nível dos cursos, há outra diferença fundamental entre os estudos nos
países europeus e no Brasil: é no nível de exigência de trabalho do estudante.
Na Europa, os alunos passam o dia na escola, desde o jardim de infância, nos
ursos fundamental e colegial, e além disso levam trabalho para fazerem em casa;
mais uma a duas horas de trabalho, e no equivalente ao nosso curso colegial,
mais de duas horas por dia.

Temos de levar avante uma reforma no ensino fundamental e colegial e no ensino
superior; é impossível fazer somente uma dessas reformas, sem fazer a outra.

Essa informações resumidas mostram o quanto temos ainda por fazer.

CURSOS SUPERIORES

Incontestavelmente nossas universidades estão progredindo, temos muita gente bem
formada em todos os domínios, temos um número razoável de universidades com bons
departamentos de Ciências e de Engenharia, boas Faculdades de Medicina, etc. mas
o número de pessoas competentes que formamos é muito inferior do que deveríamos
formar para que o País esteja apto a enfrentar a concorrência internacional.

Nos cursos superiores também deveríamos tomar como referência os melhores cursos
do exterior. Esses cursos têm uma característica em comum: os estudantes têm nos
dois primeiros anos cursos de formação básica de nível elevado, em matérias
fundamentais, sem nenhuma especialização, que permitem depois um leque de
escolha de cursos profissionais. Isso ocorre em ciências humanas, ciências
naturais e exatas, medicina, odontologia, farmácia, engenharia.

Nossas escolas de ciências e de tecnologias preparam os estudantes para
trabalharem em atividade que já existem, mas não oferecem uma cultura
científica de base que permita ao jovem lançar-se com segurança em campos
novos, procurar desafios. Vejamos o que ocorre com os cursos de ciência e de
engenharia, fundamentais para pesquisa tecnológica de vanguarda.

Quanto aos cursos de ciências, apesar da boa vontade e dos esforços de muitos de
nossos colegas dedicados, os cursos não estão adaptados a preparar jovens para
enfrentarem a competição tecnológica internacional. A solução não depende da
boa vontade e do esforço individual dos docentes, depende da estrutura do curso
e da estrutura do ensino superior e da universidade.

Quanto à engenharia brasileira, ela é de bom nível nos ramos em que atua, não há
necessidade de darmos exemplos. Mas está faltando um tipo de engenheiro, com
perfil científico. Nossas escolas de engenharia, mesmo as de maior prestígio,
não formam engenheiros capazes de enfrentar os desafios tecnológicos para o
futuro. A situação é grave, porque nossos empresários não procuram cientistas,
procuram engenheiros. Então nossos engenheiros deveriam estar preparados para
fazer o que no exterior é feito por químicos, físicos, matemáticos, mas
dificilmente poderão enfrentar essas tarefas sem uma base científica sólida,
necessária. Essa deficiência seria suprida se o estudante tivesse um bom curso
de ciências antes de estudar engenharia. Isso ocorre em muitos lugares, como em
Lisboa com o Instituto Superior Técnico, e na França onde os estudantes, para
ingressarem nas escolas de engenharia, são obrigados a estudar dois anos de
"preparação para as grandes escolas", nos quais estudam intensamente somente
matemática, física e química, qualquer que seja o ramo de engenharia que
queiram fazer no futuro, adquirem excelente formação que lhes permite seguir
qualquer ramo de engenharia ou uma carreira científica.

É importante reter que na França todos os estudantes que queiram ser engenheiros
têm praticamente o mesmo curso de matemática, de física e de química, com
pequenas diferenças, nos dois anos de "preparação para as grandes escolas". Os
que desejam ser engenheiros civis, ou de produção, têm estudar eletromagnetismo
e equações de Maxwell como os que desejam ser engenheiros eletrônicos.

Há Faculdades de Arquitetura nas quais os estudantes durante os três primeiros
anos não tem cursos de arquitetura, mas sim de artes plásticas. No quarto ano
começam arquitetura ou arquitetura de interior.

Contrariamente a essa orientação, na maioria de nossas escolas de engenharia os
estudantes fazem exames vestibulares diferenciados para diferentes ramos de
engenharia, o que é absurdo. Isso dá ao estudante a idéia de que não precisa
ter cultura, que tem de ser "prático " e "saber consultar tabelas para
trabalhar", dando-lhe precocemente a impressão de que está se "especializando".

Eu gostaria de dizer que começamos a Universidade de Brasília, há 45 anos, como
cursos básicos antes de cursos profissionais. Os estudantes cursavam dois anos
de formação básica, e no terceiro ano escolhiam a carreira que queriam seguir.
Por exemplo, havia uma formação básica engenharia, física, matemática, química,
geociências, astronomia; outra formação básica era medicina, biologia,
odontologia, psicologia; havia formações básicas em ciências humanas, em artes.
Mas um estudante podia passar de uma formação básica para outra, preparando-se e
submetendo-se a uma prova. Havia flexibilidade, mas o estudante tinha de ser
ativo.

Vários de nossos físicos e matemáticos tinham iniciado o curso na UnB com a
intenção de fazer engenharia ou economia.

Essa estrutura areja a cabeça dos estudantes, eles ficam estimulados e pensar em
várias possibilidades para seus futuros e também em pensar porque estão
estudando o que estão estudando. Em Brasília, os estudantes nos procuravam para
pedir informações sobre os estudos futuros. Por exemplo, estudantes que
desejavam ser engenheiros queriam saber porque tinham o mesmo curso de
matemática que os colegas que queriam ser matemáticos; estudantes que queriam
ser médicos queriam saber porque estudavam biologia, matemática, física e
química e não estudavam anatomia no primeiro ano como estudavam alunos de
outras universidades.

Essa estrutura é importante, mas a realização prática é difícil por causa das
previsões que precisam ser feitas apara atender aos estudantes no terceiro ano.

É importante que se estimule a tomada de consciência desse problema, com amplas
discussões, com participação de grupos nas universidades, das sociedades
científicas e das sociedades profissionais

Essa estrutura inicial da UnB foi introduzida pelo nosso grande educador Anísio
Teixeira, que já pensava nessas questões desde 1935. Juscelino Kubitschek tinha
grande admiração por Anísio Teixeira: convidou-o para organizar o ensino
fundamental e profissional em Brasília, e depois para organizar a Universidade.
Juscelino e seu ministro da Educação, Clóvis Salgado, ficaram impressionados com
as idéias de Anísio, e tinham decidido que a estrutura que ele propôs para a
Universidade de Brasília seria adotada com uma reforma da ex-Universidade do
Brasil, atualmente UFRJ, quando se mudasse para a Cidade Universitária na Ilha
do Fundão, onde está efetivamente instalada.

Mostrei a diferença no nível de exigência, entre a Europa e o Brasil, nos
trabalhos dos alunos dos cursos fundamental e colegial. Essa diferença de
exigência dos trabalhos dos estudantes é imensa nos cursos universitários,
produz choque em nossos jovens que vêm estudar em escolas superiores européias.
O estudante universitário brasileiro trabalha pouco, não adquire o hábito de
estudar sozinho, não estuda por livros, não é educado a saber demonstrar as
teorias nos assuntos teóricos, não faz muitos exercícios práticos, não se educa
em tomar iniciativas. Paradoxalmente, o estudante universitário brasileiro, que
tem o hábito de protestar às vezes de modo incompreensível e contra seus
próprios interesses, no fundo é infantilizado.

Temos de mudar muitos aspectos do ensino superior. Um deles é de valorizar o
ensino nas universidades. Devido à competição para postos de pesquisador do
CNPq, freqüentemente os docentes de maior experiência se vêem obrigados a se
concentrar em pesquisa, deixando o ensino para os mais jovens menos
experientes. Em contraste, na Europa e nos Estados Unidos há a tradição de que
os cursos do primeiro ano são ministrados pelos professores de maior
experiência, inclusive detentores do Prêmio Nobel.

Este assunto precisa ser muito debatido, há sobre ele incompreensões que
surpreendem. A reforma no ensino exige implicitamente financiamento, pois serão
necessárias novas instalações, laboratórios, e ainda mais necessariamente para a
pesquisa. No entanto, no Decreto N° 6.096, de 24 de abril de 2007, no qual o
Presidente da República institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação
e de Expansão das Universidades Federais ¬ REUNI, termina com o Art. 7° : "As
despesas decorrentes deste decreto correrão à conta das dotações orçamentárias
anualmente consignadas ao Ministério da Educação". Esse Art. 7° não encoraja
otimismo. Fazer reforma importante sem verba?

10 de agosto de 2007

Roberto Salmeron





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