[Adjuntos-ccmn] Re: [forum-prof] Declínio das pate ntes no mundo e a situação do Brasil ( estatísticas da WI PO)

coelho at if.ufrj.br coelho at if.ufrj.br
Wed Feb 17 19:47:00 BRST 2010


Colegas

Concordo com o Roberto, a fronteira entre a pesquisa básica e a aplicação é
a coisa mais estranha possível. O Faraday estudou correntes induzidas 
em fios metálicos que se movimentavam na vizinhança ou de ímãs ou de um 
outro fio
onde passasse uma corrente variável, o efeito que é a chamada lei de Faraday
do eltromagnetismo. Há um diálogo famoso com a rainha Vitória que, ao
visitar o laboratório dele perguntou qual o uso daquilo. Faraday replicou
"Madam, of what use is a baby?". (citado pelo Carl Sagan em
http://www.banned-books.com/truth-seeker/1995archive/122_1/ts221d.html).
Faraday era um experimentalista e tinha a idéia de que talvez no futuro
fizessem aparelhos baseados nessa lei. Hoje toda a geração de eletricidade em
represas, em usinas térmicas de combustível fóssil, em usinas nucleares e em
moinhos de vento e baseada nela. Além disso todos os motores elétricos se
baseiam nela, que talvez seja a lei científica mais importante para a
humanidade, que transforna energia mecânica em elétrica e energia elétrica
em mecânica.

Aqui no Brasil os positivistas, seguindo as idéias dogmáticas da Revolução
Francesa, eram contra a universidade e contra idéias não mensuráveis (os
átomos, por exemplo). Lá podia fazer algum sentido mas aqui não fazia
sentido algum, o anti-intelectualismo positivista foi uma desgraça. Aqui no
Brasil os tenentes e generais formados na antiga Escola Politécnica de
tradição positivista e que deram o golpe da república influenciaram até a
esquerda. Eles foram, Prestes à frente, recrutados pela Seção Brasileira da
Internacional Comunista, depois Partido Comunista do Brasil, depois Partido
Comunista Brasileiro, depois PPS. Vem daí talvez o ranço anti-pesquisa de
parte da nossa esquerda. Estranhamente os outros militares que foram para a
direita apoiavam a pesquisa científica e tecnológica e o planejamento estatal
da economia.

Outro problema é a administração científica pois como medir a qualidade e a
quantidade do trabalho científico? Os positivistas tinham uma preocupação
com o rigor dos dados, o que não é nada mau, mas números tirados de
fórmulas esdrúxulas não necessariamente dizem algo, podem dizer ou não.
Essa manipulação das listas do Qualis, por exemplo, é ridícula. Os
próprios comitês que segmentaram as revistas das listas Qualis dizem que ela
não é para avaliações individuais mas exatamente isto que é feito. Assim
é como usar um termômetro para medir a temperatura de um objeto distante,
não vai dar certo mas a culpa não é do termômetro.

Abraços


Quoting Roberto de Barros Faria <faria at iq.ufrj.br>:

Gostaria de alertar aos colegas que sair dizendo que temos um "modelo 
acadêmico bacharelístico voltado para a produção de papel, seja na forma de
papers ou de diplomas", atende muito bem aos interesses daqueles que querem
manter o atrazo brasileiro. Sem ciência básica não faz nada a não ser
copiar os
outros. Acho que o Prof. Luis Paulo deveria ter mais cuidado com as suas
declarações.  Tem muita gente mal intencionada que certamente gostaria muito
de usar uma opinião como esta para justificar a redução no financiamento da
pesquisa em geral. É  muito difícil de se saber quando um trabalho é
aplicado ou fundamental e também se um  trabalho fundamental terá ou não uma
aplicação relevante.  Um bom exemplo para reflexão é o resultado de
Einstein, conhecido de todos, mostrando que matéria e energia são
equivalentes, a partir da
teoria da relatividade. Sem essa noção básica teríamos dificuldades no
entendimento dos  processos de fusão e fissão nuclear que produziram bombas
atômicas e reatores nucleares.
Por favor, não sejamos ingênuos ao acreditar que só o que, no momento,
entendemos  como aplicado é que vale a pena pesquisar. Será que por um acaso
estamos de volta aos ditames do positivismo?
Roberto de Barros Faria
> Departamento de Química Inorgânica
> Instituto de Química
> Universidade Federal do Rio de Janeiro
>
>
> ---------- Original Message -----------
> From: "Luis Paulo Vieira Braga" <lpbraga at im.ufrj.br>
> To: coelho at if.ufrj.br, adjuntos-ccmn at listas.if.ufrj.br
> Cc: forum-prof at listas.if.ufrj.br
> Sent: Sun, 14 Feb 2010 18:28:42 -0300
> Subject: [Adjuntos-ccmn] Re: [forum-prof]  Declínio das pate ntes no mundo e a
> situação do Brasil ( estatísticas da WI PO)
>
>> O Brasil está muito mal na fotografia, porque patentes são mais reflexo da
>> atividade econômica do que da científica(o artigo citado aliás mostra
>> exatamente a correlação entre a crise mundial e o decréscimo no número de
>> patentes). E em termos de PIB o Brasil está entre as 15 maiores economias do
>> mundo, no entanto em termos de patentes estamos atrás de todos os países da
>> Europa ocidental(exceto economias minúsculas), de vários países asiáticos -
>> Coréia e Singapura(além , é obvio da Índia e China). Só ganhamos mesmo na
>> África e na América Hispânica.
>>
>> Esse é o resultado de um modelo industrial importador de tecnologia e de um
>> modelo acadêmico bacharelístico voltado para a produção de papel, seja na
>> forma de papers ou de diplomas.
>>
>> On Sat, 13 Feb 2010 20:40:24 -0200, coelho wrote
>> > Colegas
>> >
>> > Acabou de sair um relatório da World Intellectual Property
>> > Organization (WIPO), uma agência das Nações Unidas, mostrando a
>> > evolução das patentes solicitadas nos últimos quatro anos,
>> > detalhando país, grandes empresas e áreas de atividade. O artigo
>> > está em
>> > http://www.wipo.int/pressroom/en/articles/2010/article_0003.html ,
>> > vale a pena olhar. Sugiro também que vejam um vídeo da conferência,
>> >  que dura alguns minutos e resume os dados.  O link está na parte de
>> > cima da página.
>> >
>> > A recessão fez cair em 4,5% o número das patentes no último ano,
>> > principalmente nos EUA que caiu 11%, mas muitos países aumentaram:
>> > China, Japão e Coréia do Sul.
>> >
>> > Nos últimos quatro anos a China cresceu mais de um fator 3 e agora
>> > passou a França e está no quinto lugar. A produção de patentes da
>> > Rússia está estagnada e é baixa, pouco superior à do Brasil hoje. O
>> > Brasil aumentou bastante nesses 4 anos, passamos de algo como 0,15%
>> > para 0,30%, mas isto ainda é muito pouco pois temos bem mais de 1%
>> > da produção científica do mundo.
>> >
>> > Abraços e bom carnaval!
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