RES: [forum-prof] A necessidade de um Plano Diretor de "Arrumação Já"
Carlos Vainer
cvainer at uol.com.br
Fri Aug 21 23:36:04 BRT 2009
Colega
Ninguém tem a pretensão de achar que um Plano, seja ele o melhor do mundo,
pode resolver problemas acumulados ao longo de décadas e, mais que isso,
problemas que, muitos deles, estão fortemente enraizados numa cultura do
desleixo, do descuido pela coisa pública, do cada um por si e seja lá quem
for (isto é, ninguém) por todos, e por aí vai.
O Plano Diretor UFRJ 2020, por mais ambicioso que seja, e ele o é, de
maneira consciente e declarada, não tem esta pretensão. Mas há coisas que
DEVEMOS FAZER E PODEMOS FAZER. Devemos, e podemos, identificar os problemas,
e a partir daí começar a discutir caminhos possíveis para equacioná-los e
enfrentá-los. Devemos, e podemos, hierarquizá-los, pois nem todos são
igualmente relevantes, ou igualmente prementes; e a hierarquização é
essencial, pois ela orienta, numa situação de recursos escassos, a melhor
maneira de racionalizar as decisões sobre alocação de recursos, de modo a
otimizá-los. Isto não signfica, evidentemente, que devamos abandonar a luta
por mais recursos para a universidade públilca, mas há que alocar os
recursos existentes, mesmo que parcos, da melhor maneira possível.
O Plano Diretor, também, favorece uma discussão ampla, aberta, sobre os
problemas, caminhos e projetos de universidade. Afinal, ninguém é idiota
para achar que uma universidade se faz com jardins, paisagens e ciclovias,
com teatros e residência universitária; mas tampouco não acreditamos, muitos
de nós, provavelmente a maioria, que enquanto não resolvermos os graves
problemas da educação do país não possamos fazer nada para melhorar nossa
universidade, as condições de trabalho e estudo, as condições de vida
inteligente na Cidade Universitária. Não é preciso ir muito longe, a Cornell
ou a Princeton, basta dar um pulo na UFMG, na UFSC, na UFRGS (cito apenas
universidades federais, pois as estaduais paulistas dispõem de muito mais
recursos) e verificar que é possível oferecer condições mais adequadas para
toda a comunidade universitária. É possível discutir, elaborar e construir
coletivamente caminhos pactuados na direção de uma universidade mais
integrada (e isso, certamente, faz parte de um debate mais amplo sobre a
natureza da formação que se pretende oferecer aos estudantes, assim como
sobre a natureza do conhecimento nesta era de revolução paradigmática e
epistemológica).
O descontentamento com as condições hoje existentes é geral, e mais do que
justificado. A questão é: o que fazer com esse descontentamento?
Acumulá-lo num incessante e interminável muro de lamentações, onde lambemos
nossas feridas e, de forma passiva, fatalista, acomodamo-nos, porque estamos
convencidos de que nada será possível, que tudo continuará como é para todo
o sempre? Ou então que nada deve ser feito enquanto não for feito
absolutamente tudo? Transformar nossa insatisfação numa ladainha enfadonha e
repetitiva contra os culpados, que, certamente, serão sempre os outros e
nunca nós mesmos? Descobrir que, desde sempre, e para todo o sempre, os
dirigentes que elegemos foram, são e serão incapazes de expressar qualquer
compromisso com a mudança e fazer do debate público uma guerra de todos
contra todos, sem qualquer horizonte que não seja a permanente
desmoralização de nós mesmos? Fazer de qualquer esforço de discussão um
objeto de deboche, desqualificando qualquer questão que não seja aquela que
eu quero discutir? Esta imposição de pautas e agendas não opera, neste
caso, como uma forma autoritária de desqualificar os problemas levantados
por outros?
Este é um caminho. Pode desopilar alguns fígados, e dar a alguns a sensação,
quase sempre agradável, de que pelo menos desabafei e disse umas boas
contra essa porcaria de universidade. Pode dar a alguns o sentimento de
poder que vem da sensação de atacar a todos com todas as forças. Pode até
mesmo transformar-se em uma força moral, coletiva, que favoreça o avanço da
reflexão crítica. Mas certamente, não nos faz avançar de uma polegada no
enfrentamento concreto de nossos problemas, deficiências, limitações,
equívocos, vícios coletivos e individuais.
Há, porém, um caminho alternativo. Ele é bem mais complicado, mais difícil,
e não oferece certezas de vitória. Não premia a auto-condescendência nem a
virulência gratuita de uma guerra declarada contra todos. Ele exige a
reflexão crítica, sem dúvida, mas pede também um esforço de construção de
soluções, mesmo que parciais. Ele exige um esforço coletivo que vai além das
declarações altissonantes, onde o eco da própria voz apenas satisfaz aos
seus enunciadores. Para trilhar este caminho, há que analisar os processos,
recolher e avaliar todas as críticas, produzir diagnósticos, construir
caminhos possíveis,compará-los e fazer opções, hierarquizar problemas,
projetar no tempo e no espaço idéias e soluções. E aprender com o exercício
permanente da crítica, do acerto e do erro. Com mais modéstia do que estamos
habituados a encontrar entre doutores e intelectuais. Mas com ambições,
olhando o futuro de uma universidade que não será feita de prédios, mas de
gente, sem dúvida, mas de gente que exige, com razão, condições adequadas
para o trabalho acadêmico.. De professores e estudantes, e servidores
técnico-administrativos. MAS QUE SE TERRITORIALIZA, SE CONCRETIZA NUM ESPAÇO
DETERMINADO. O primeiro plano da Universidade de Colúmbia teve como ponto de
partida a Residência Universitária. Há universidades americanas cujo plano
começou com o projeto de biblioteca, que ocupava o centro do campus.
Evidentemente, não vamos copiar nada de ninguém. Temos que enraizar nossas
soluções em nossa realidade e nas particularidades de nosso país, nossa
cidade e nossa universidade. E nos objetivos que nos fixemos. Mas isso não
quer dizer que não se pode aprender com a experiência internacional. Como se
pode aprender com a experiência internacional dos trens de alta velocidade,
e saber que não é dessa maneira que se planeja um empreendimento desse
porte.
Quero insistir aqui é que é necessário e possível discutir nossos problemas
e não apenas nos lamentarmos deles. É necessário e possível buscar
construir, coletiva e democraticamente, caminhos para equacioná-los,
hierarquizá-lo e enfrentá-los, afirmando nossa autonomia e construindo nosso
projeto coletivo. Para isso, mais que nunca, é importante que surjam
propostas e projetos. Que estes se encontrem, confrontem, complementem e
oponham.
Afinal, se uma universidade não é feita de idéias, e de confronto de idéias,
para que serve? Se uma universidade não consegue se pensar a si mesma e
projetar-se no espaço e no tempo, qual o sentido da autonomia?
Saudações universitárias
Carlos
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Prof. Carlos Vainer
IPPUR / UFRJ
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Av. Pedro Calmon, 550 - Prédio da Reitoria, s. 533
Cidade Universitária
21941-590 Rio de Janeiro RJ
Brasil
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De: forum-prof-bounces at if.ufrj.br [mailto:forum-prof-bounces at if.ufrj.br] Em
nome de Luiz Eduardo email
Enviada em: quinta-feira, 20 de agosto de 2009 07:42
Para: FORUM-prof at listas.if.ufrj.br
Assunto: [forum-prof] A necessidade de um Plano Diretor de "Arrumação Já"
At 10:32 20/8/2009 -0300, you wrote:
Ola colegas,
pelo jeito ha uma insatisfaçao geral com a situação atual (ou mesmo de
decadas) do Fundao, desde terrenos imensos sem terem o cuidado necessario,
ate´ uma sobra de espaço nos terrenos e falta de espaço dignmo para os
professores, com gabinetes de palstico espremidos, de forma que se tiverem
discussao com seus alunos, tem que moderar a voz para nao atrapalhar o
"vizinho". Enfim, frente a imensidao da ilha, parece algo inusitado. Fora
isto
as questoes de segurança que de uma hora p/ outra sem esperarmos (espero que
nao retornem a ocorrer...) ocorrem assaltos a carros, ou mesmo a profs.
dando
aulas.
Tambem nao posso conceber um professor trabalhar preparando aulas, atendendo
alunos, fazendo pesquisa, discutindo com colaboradores, etc., sem salas
individuais adequadas.
Enfim, nao sei se o Plano Diretor irá resolver estes problemas. Por outro
lado
nao sei se adianta apresentarmos soluçoes incriveis mais inviaveis com o
verba
da UFRJ.
Ou seja, apos mandar meu email chocado com o aspecto paisagistico do Fundao,
passei a ver, por um lado a gravidade da situaçao, por outro a dificuldade
de
ser solucionada.
Abcs,
ALO
ALEXANDRE,
A UFRJ padece dos mesmos problemas que padecem as autarquias e a quase
totalidade dos órgãos públicos.
Mas havemos de convir que há diferenças notórias, para pior, quando
comparamos o cenário físico, da UFRJ, com o de outras universidades
públicas.
Muitos e altamente complexos são os fatores que conduziram a isso.
Boa parte dos fatores está fora do alcance de nossa intervenção:
localização, tamanho, degradação urbana no entorno, desordem geral no
município etc.
Há um fator, porém, que nos deveria chamar atenção em particular:
é que a comunidade que permitiu chegarmos a este grau...
muito provavelmente,
é uma comunidade que terá brutais dificuldades,
e apresentará muitas resistências...
para compreender essa realidade...
para aceitar essa realidade...
e mais ainda para transformar essa realidade.
E essa realidade, no entanto, continua em evolução
(para pior).
O desafio está aí.
E antes de 2020...
Temos 2009.
Um Plano Diretor é imprescindível.
Mas não serve qualquer um.
Nem ele será automaticamente implementado.
O problema principal de um projeto UFRJ 2020...
é que ele estará sendo formulado e implementado pela UFRJ 2009
(que permanece a mesma).
Ou seja...
é imaginar que o Senado será renovado mantendo o Sarney na presidencia.
L.E.
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