[forum-prof] A Escola de Aprendizes Artífices - inaugurada em 1910

Abraham Zakon azakon2 at globo.com
Sun Aug 2 17:44:42 BRT 2009


Prezados:

 

 

[...] não só habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna

com o indispensável preparo técnico e intelectual, como fazê-los

adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da

ociosidade, escola do vício e do crime [...] (BRASIL, 1909 –

grifo nosso).

 

A leitura do texto abaixo revela que após um século ainda se mantém um
situação similar nas grandes capitais. 

 

Novos ofícios surgiram desde então, e foram catalogados no texto da
“Classificação Brasileira de Ocupações” do Ministério do Trabalho e do
Emprego. 

 

Se as universidades devem formar professores para atender as novas demandas
ocupacionais e evitar a ociosidade e o crime, é necessário criar colégios e
oficinas de inclusão (em pelo menos, um campus) para essa atividade
educacional de novos docentes.

 

Abraham Zakon

 

Escola de Química

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IMAGENS E MEMÓRIAS DA ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES DE CAMPOS

 

GOMES, Luiz Claudio Gonçalves - UFF / CEFET Campos

GT: História da Educação / n.02

Agência Financiadora: Não contou com financiamento

 

INTRODUÇÃO

 

A Escola de Aprendizes Artífices de Campos foi inaugurada em janeiro de 1910
e

concluiu seu ciclo em 1942 sem que sua história tivesse sido escrita, muito
menos

registrada de outro modo que não o fragmentado. A inexistência de qualquer
obra, ou

mesmo de uma simples publicação sistematizada sobre a história da educação

profissional realizada nessa cidade, nos impulsionou no sentido de poder dar
alguma

contribuição. Para tanto, sugerimos o uso da fotografia como importante
fonte de

consulta e análise.

As imagens fotográficas configuram-se como uma espécie de janela para olhar
a

Escola de Aprendizes Artífices de Campos, mas não com os olhos de hoje e sim
com o

intento de recuperar sua história de ensino profissional técnico, pioneira
na cidade e no

cenário nacional.

 

ENSINO, TRABALHO E PRECONCEITO

 

No início do século passado, os desocupados, os vadios, os mendigos, os
ladrões

e toda sorte de marginalizados e excluídos sociais, começavam a se agrupar
nas grandes

cidades, oferecendo desafio constante à ordem estabelecida.

Assim, preferencialmente o Estado deveria ocupar-se da criação de
instituições de

confinamento, polidas nos moldes e valores burgueses para a formação do
caráter do

jovem. Tais instituições teriam ainda um caráter policial na luta contra a
vagabundagem

e a criminalidade cometida pelos menores (QUELUZ, 2000).

O surgimento das Escolas de Aprendizes Artífices foi o acontecimento mais

marcante do ensino profissional na Primeira República (CUNHA, 2000) e a de
Campos

2

foi uma das 19 criadas pelo Decreto-Lei nº 7.566 de 23 de setembro de 1909,
assinado

pelo então Presidente da República, Nilo Peçanha.

No início de suas atividades, em 1910, a escola de Campos se destacava pelo
alto

índice de matriculados. Juntamente com a escola do Paraná a escola de Campos
se

manteve entre as duas escolas com maior número de matrícula. A escola
campista

chegou a alcançar, em 1919, o surpreendente número de 521 alunos inscritos.

Mas havia um grande despreparo dos mestres e as escolas se constituíam em

espaço de qualificação de uma mão-de-obra que previam cursos de duração e

intensidades variadas. Isso acarretou um mau funcionamento das escolas,
tornando-as

simples escolas primárias.

O caso particular da escola de Campos é controvertido, já que foi a única a
não

seguir o critério de instalação mais adequada fora da capital. A escola do
estado se

estabeleceu na cidade natal do então Presidente Nilo Peçanha. Diferente do
que possa

parecer não se trata de mais uma referência nepotista, mas às vicissitudes
da pequena

política fluminense, pois o Presidente do Estado do Rio de Janeiro Alfredo
Backer não

se dispôs a oferecer ao governo federal facilidades físicas para a
instalação da escola na

capital do estado (MONITOR CAMPISTA, 1909; CUNHA, 2000).

Nas idéias que vigoravam à época existia uma desvinculação entre formação

profissional e educação, entre trabalho e educação. Educação era aquela de
base teórica,

porém intelectualista, voltada para a formação das classes dirigentes,
daqueles que iriam

ocupar os cargos de comando, ou burocráticos, na sociedade; formação
profissional era

aquela de base prática, voltada para as classes populares, para os
"desfavorecidos da

fortuna" (BRANDÃO, sd).

Quanto à perspectiva de a criação destas escolas estar voltada para o

desenvolvimento das indústrias do país, como uma adequação da política de
incentivo

ao ensino de ofícios como resposta e estímulo do processo de
industrialização, Cunha

faz uma longa análise onde demonstra ser este um equívoco de interpretação.
Para o

autor, se fosse este o caso, deveria existir uma "correspondência entre a
distribuição

espacial das empresas manufatureiras e a localização das escolas" (1983, p.
53).

Como alguns estudiosos do tema já têm apontado, o decreto que cria esta rede
de

ensino é muito claro quanto aos problemas que se leva em conta para
justificar a sua

criação:

3

[...] não só habilitar os filhos dos desfavorecidos da fortuna

com o indispensável preparo técnico e intelectual, como fazê-los

adquirir hábitos de trabalho profícuo, que os afastará da

ociosidade, escola do vício e do crime [...] (BRASIL, 1909 –

grifo nosso).

Aqui podemos perceber que uma das maiores preocupações referia-se aos novos

problemas que surgiam com o processo de urbanização. Ao mesmo tempo, já
naquele

momento, começava-se a perceber a necessidade de incentivar a nova classe
social que

vinha se formando a vender sua força de trabalho, dedicando-se a atividades
até então

desvalorizadas, tornando-se importante "fazê-los adquirir hábitos de
trabalho profícuo”

Uma medida inovadora trazida pelo regulamento de 1926 foi a industrialização

das escolas de aprendizes artífices e tinha por objetivo aumentar a produção
e a renda

das Escolas, além de tentar oferecer ao aluno um campo de aprendizagem mais
vasto.

A produção das oficinas era reorientada para o mercado, cabendo aos alunos

remuneração conforme seu trabalho, não por uma diária, como até então se
fazia. Para

seu mentor, Lüderitz, o principal motivo para introdução da industrialização
nas escolas

de aprendizes artífices era de razão técnica, uma vez que, para ele, não
seria possível

um aluno aprender sem a sua prática (CUNHA, 2000).

No geral, foi ineficaz a industrialização das oficinas e outras medidas
similares,

através das quais tentou-se, ao longo dos anos, diminuir as altas taxas de
evasão e

corrigir a baixíssima produtividade das escolas de aprendizes artífices
(CUNHA, 2000).

 

IMAGENS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA

 

Pesquisar, no âmbito da história da educação, é estar diante de uma
diversidade de

fontes e possibilidades, com o uso de “novos” documentos, até então
desconsiderados.

Dentre as variadas fontes encontramos: cadernetas, boletins, discursos,
documentos

escolares, relatos orais, fontes iconográficas (fotografias, ilustrações,
filmes), periódicos

(jornais, revistas) e outros.

Essa tendência tem aproximado outras disciplinas das ciências humanas com a

história, no sentido de desenvolver uma metodologia adequada aos novos tipos
de textos

(CARDOSO e MAUAD, 1997).

4

Essa complementaridade entre os diversos tipos de material se mostra de
muita

utilidade, já que fornece uma visão de conjunto do fenômeno muito mais rica
que apenas

uma fonte de dados conseguiria alcançar (SINSON, 1996).

A fotografia é um componente de uma intrincada rede de significações que
revela

pistas através da produção de imagem. A imagem possui um caráter conotativo
que nos

leva aos modos de ser e de agir do contexto no qual estão inseridos como
mensagem

(ANDRADE, 1990, p. 2).

Através das entrevistas realizadas com ex-alunos e ex-professores, nossa
pesquisa

buscou ampliar suas fontes para guardados pessoais, como fotografias
documentos.

A história oral e as memórias não nos oferecem um esquema de experiências

comuns, mas um campo de possibilidades que são compartilhadas. As diferenças

individuais, no entanto, nos fazem lembrar “que a sociedade não é uma rede

geometricamente uniforme como nos é apresentada nas necessárias abstrações
das

ciências sociais”. Trata-se de uma representação do real que não é muito
fácil de gerir,

ainda que nos pareça mais coerente, tanto pelo reconhecimento da
subjetividade, como

pela realidade objetiva dos fatos (PORTELLI, 1996, p. 72).

A imprensa local, através dos jornais de época, se constituiu em outra
importante

fonte de investigação, sobretudo do ponto de vista de como a sociedade
percebia a

escola de Campos.

Entendemos que a imprensa permite o “reconstruir” da história, trazendo à
tona

alguns modelos de funcionamento no campo educacional, constituindo-se num
recurso

valioso para enriquecer as análises no campo da história da educação, por
veicular uma

grande quantidade de informação, pela proximidade dos acontecimentos, pelo
caráter

veloz e polêmico de suas informações e pelo poder de intervenção na
realidade.

 

ANÁLISE PRELIMINAR

 

Ao analisar o texto do Decreto n. 7.566 podemos perceber que mesmo se
tratando

do objetivo em formar operários e contramestres, a previsão de oficinas nas
escolas para

ensinar um trabalho manual ou mecânico já indica, em parte, qual o tipo de

estabelecimento produtivo que se tinha em mente. E aqui cabe uma observação,
pois

devemos estar atentos para não interpretarmos equivocadamente o que naquele

momento específico da história do país estava sendo compreendido por
"indústria". Não

5

nos esquecendo do significado que estava sendo dado para a importância de
"habilitar

os filhos das classes desfavorecidas da fortuna" –muito mais do que
qualificar uma

mão-de-obra necessária, existia a preocupação com os problemas urbanos que
os

"desocupados" poderiam causar (BRANDÃO sd).

Os ofícios que eram ensinados em todas elas eram os de marcenaria,
alfaiataria e

sapataria, mais artesanais do que propriamente manufatureiros, o que mostra
a distância

entre os propósitos industrialistas de seus criadores e a realidade diversa
de sua

vinculação com o mundo do trabalho fabril (CUNHA, 2000).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Propusemos o exame teórico de alguns conceitos fundamentais para estudar e

interpretar a fotografia, como fonte histórica para a educação, à luz de
metodologias de

pesquisa histórica e sua aplicação ao nosso objeto de estudo, produto, tanto
de relações

técnicas e econômicas, quanto culturais.

Entendemos melhor a possibilidade do objeto estudado como reflexo de
múltiplas

leituras, viabilizadas através do uso de outras fontes, além das imagéticas,
na

reconstrução da história mais além do encanto da fotografia. Para tanto,
identificação da

data e local fotografado, legendas, historiografia sobre a época, o recurso
da história

oral e o levantamento factual, através da imprensa periódica, são
constituintes de um

rico material na reconstituição da memória e da história da educação.

É importante destacar que a qualificação que se pensava estava
essencialmente

voltada para o trabalho manual, que ainda sofria o estigma da escravidão
abolida tão

recentemente. Sendo assim, "formar para o trabalho" era o mesmo que
"adestrar, treinar

para técnicas manuais" ou, quando muito, "mecânicas". Não se tratava de uma
formação

que conjugasse teoria e prática. Por um lado, tínhamos uma produção nacional

essencialmente agrícola, sem o uso de técnicas mais elaboradas e por outro,
uma

indústria muito incipiente, rústica, ainda baseada no artesanato e na
manufatura. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANDRADE, Ana Maria Mauad. Sob o signo da imagem: a produção da fotografia e
o

controle dos códigos de representação da classe dominante, no Rio de
Janeiro, na

primeira metade do século XX. Niterói: UFF, 1990.

6

BRANDÃO, Marisa. Da arte do ofício à ciência da indústria: a conformação do

capitalismo industrial no Brasil vista através da educação profissional. sd.
(mimeo).

BRASIL. Leis, Decretos. Decreto 7.566, de 23 de setembro de 1909.

CARDOSO, Ciro Flamarion e MAUAD, Ana Maria. História e imagem: os exemplos

da fotografia e do cinema. In: CARDOSO, Ciro Flamarion e VAINFAS, Ronaldo

(Orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de
Janeiro: Editora

Campus, 1997. cap. 18, p. 401-417.

CUNHA, Luiz Antônio. As escolas de aprendizes artífices e a produção
manufatureira.

Revista da Faculdade de Educação. UFF, Niterói, ano 10, nº 1-2,
janeiro/dezembro

1983.

________. O ensino de ofícios nos primórdios da industrialização. São Paulo:

Editora UNESP, Brasília (DF): Flacso, 2000.

MONITOR CAMPISTA. Escola de Aprendizes Artífices. 2, 3, 5, 7 e 8 de outubro
de

1909. Campos (RJ).

PORTELLI, Alessandro. A filosofia e os fatos. In: Tempo. Rio de Janeiro,
vol.1, nº 2.

1996. p. 59 - 72.

QUELUZ, Gilson Leandro. Concepções de ensino técnico na República Velha
(1909-

1930). Curitiba: CEFET-PR, 2000.

SINSON, Olga von. Depoimento oral e fotografia na reconstrução da memória

histórico-sociológica: reflexões de pesquisa. In: Boletim do Centro de
Memória.

Unicamp, vol. 3, nº 5 jan/jun 1991.

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