[forum-prof] No site da CAPES
Lilia Irmeli Arany-Prado
lilia at ov.ufrj.br
Fri Sep 28 12:22:10 BRT 2007
Brilhante comentario, Maria
(inclusive porque hienas -e baratas -
sao particamente os unicos bichos sobre os quais
pairam meus preconceitos assumidos). l
On Thu, 27 Sep 2007 21:32:39 -0300, Maria A. Silva wrote
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> Gosto muito de Berlin, mas sinceramente acho que um meio termo entre ouriço e raposa seria mais adequado.
> Só que não encontro nada, nesse meio termo, melhor do que uma hiena...
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> Alguém tem idéia melhor?
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> Abraços,
> Maria Aparecida
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> http://www.capes.gov.br/servicos/salaimprensa/artigo_avaliacaotrienal.htmlAvaliação Trienal 2004-2006
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> A pós-graduação e os gêniosA antropóloga Eunice Durham, minha colega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, foi presidente da Capes. No exercício desse cargo, visitou a Congregação da Faculdade e criticou os professores não produtivos. Um professor presente, pessoa a quem respeito muito, argumentou: "Eunice, mas deste jeito Espinosa (que publicou pouquíssimo em vida) nunca teria sido aceito pela Capes como professor!"
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> E a professora Eunice respondeu: "O problema é que todos os que não publicam acham que são Espinosa".
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> Poderíamos transformar esta questão num silogismo errado: Sócrates não escreveu nada (primeira premissa); Sócrates foi um gênio (segunda premissa); quem não escreve nada é gênio (conclusão). Mesmo intuitivamente, dá para perceber que aqui há um erro lógico sério. Quando muito, poderíamos concluir que mesmo quem não escreve nada pode ser um gênio. Não mais que isso.
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> Podemos também mostrar as mudanças na forma pela qual se dá a produção científica. No século V a.C., quando viveu Sócrates, ou mesmo no século XVII, quando floresceu Espinosa, os custos da pesquisa científica eram bastante baixos, ela se fazia por indivíduos mais do que por grupos (embora houvesse escolas e discípulos em Atenas, e Espinosa fosse contemporâneo da criação da Royal Society - que, por sinal, não aceitou entre seus membros Thomas Hobbes). Hoje, sem uma rede de interlocutores, boas bibliotecas e laboratórios, pouco se faz em termos de ciência ou de geração de conhecimento de qualidade.
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> Mas cabe a questão: um sistema que se baseia na avaliação externa por pares e privilegia a produção científica nos melhores periódicos ou editoras de alguma forma facilita - ou dificulta - a emergência de gênios? Creio que, nos artigos anteriores, ficou bastante claro que certas críticas à avaliação da Capes, como o "publish or perish", o "produtivismo" e outras, só podem ser feitas por quem não tem a menor idéia do que é essa avaliação. Por isso, passamos aqui a outro patamar.
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> O dado preliminar é: hoje temos um sistema científico de alta qualidade, que em larga medida confere a qualidade do trabalho novo que entra. Mas há trabalhos que esse sistema recusa. Muitos dos que se opõem aos sistemas de avaliação, de revisão por pares e outros, alegam que o sistema é enviesado e privilegia, por exemplo, quem já está dentro (os insiders) em detrimento dos outsiders.
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> Isso pode, claro, ocorrer. Cabe a todo sistema de avaliação reduzir ao mínimo o peso dos preconceitos na entrada do novo. Todo cientista responsável é capaz de aceitar a qualidade de trabalhos com os quais não concorda - ou deveria ser capaz de aceitá-la, isto é, de distinguir muito bem o acordo/desacordo e a qualidade/falta de qualidade. E o dado empírico é que, da ciência rejeitada, dos trabalhos propostos à publicação e recusados, ou, de modo geral, dos trabalhos que a academia não aceita, uma fração mínima tem mesmo qualidade. Por mais que uma vertente romântica goste da idéia do gênio incompreendido, o silogismo "Sou incompreendido. Um grande cientista, artista ou pensador foi incompreendido. Portanto, todos os incompreendidos são grandes (cientistas, artistas ou pensadores)." é falso. Não procede.
>
> Gênios
> No entanto, existe um número de pessoas, difícil de quantificar, que efetivamente rompem com os padrões vigentes e conseguem produzir uma obra de destaque. O mito romântico não seria tão forte se não tivesse uma base de realidade. Há exageros, como o que diz que Einstein foi mau aluno e de repente se tornou bom: na verdade, apenas mudou o sistema de notas no seu país natal, de modo que a escala se inverteu e quem era bom aluno (como ele) continuou sendo, embora a nota de um ano para outro passasse de 1 para 10, ou de 10 para 1. Mas o novo também é rejeitado, ainda que depois se imponha.
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> A nossa questão então é: um sistema de avaliação por pares facilita, ou dificulta, a emergência do gênio? Ou a do novo? Podemos responder nas duas direções. Podemos supor que, formando uma grande massa de pesquisadores em física, ou filosofia, que dialogam entre si, que conhecem cada vez mais, nós facilitamos que alguns deles se despontem pela sua originalidade e se alcem à condição de gênios - ou que, pelo mesmo processo, nós os tornamos homogêneos e pouco abertos à novidade. Tendo mais a acreditar na primeira opção, mas são assuntos abertos à discussão. E, de todo modo, o advento da novidade, ou da genialidade, nunca é fácil.
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> Então, poderíamos deslocar a questão e formular duas hipóteses. Aliás, as idéias expostas neste artigo são claramente pessoais e nada têm de institucional. Não são as idéias de um diretor de avaliação, mas são hipóteses de um professor que aprendeu na e com a Capes. Não empenham a agência, nem a mim mesmo: são como as idéias que o sobrinho de Rameau, no livro de Diderot, manda passearem. Caminhar sempre foi útil para pensar.
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> A primeira é que, talvez, o gênio não dependa tanto de sua formação. Se pensarmos no gênio, num sentido bastante exigente, como alguém que faz o balanço entre respeitar as convenções (que são tão necessárias até para o convívio social) e criar o novo pender para o segundo lado, então poderíamos pensar que o gênio terá dificuldades de convívio, será obcecado, talvez seja uma pessoa de poucas (mas excelentes) idéias¹ . Esta é uma hipótese, que poderia ser reforçada com a teoria do desafio, desenvolvida por um historiador hoje pouco lembrado, A. J. Toynbee, em seu A Study of History. Toynbee sustentava que uma civilização se desenvolvia mais quando tinha de enfrentar um desafio (por isso, em lugares muito aprazíveis a civilização não chegou a um grande avanço), mas não um desafio excessivamente grande (daí que, nos desertos e nos gelos extremos, ela também não tivesse seus melhores escores). Pode ser que o gênio tenha a ver com o desafio e, por isso, escolas para gênios não s!
ejam a melhor maneira de fazê-los desenvolver suas potencialidades. Talvez seja mais eficaz a dificuldade (se não extrema) do que a facilidade. Talvez.
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> A segunda questão é se a missão da avaliação - e por extensão das agências estatais de fomento - é formar gênios. Pelo que sugeri acima, gênios não são formados de fora para dentro. Podem ser ajudados (talvez, ao serem dificultados). Eles se formam a si mesmos (com alguma ajuda/dificuldade). Mas o que um projeto de Estado, ou de sociedade, pode realizar é - possivelmente - a formação de uma massa significativa de pessoas bem capacitadas a desenvolver pesquisas e a adiantar o conhecimento. Por isso Eunice Durham tinha razão: não é qualquer improdutivo que é um Espinosa; e poderíamos acrescentar: e não está em nossas mãos o segredo de como formar Espinosas e Sócrates.
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> Tudo isso posto, e neste mais pessoal de meus artigos na presente série, o que precisamos é não apenas formar pessoas capacitadas, mas gerar constantemente a capacidade de elas criticarem o próprio sistema em que se formaram. Estes anos, temos discutido muito a avaliação. Acreditamos que, com isso, ela avançou. É preciso repor em xeque as frases e idéias aceites. Isso deveria estar mais na agenda da pesquisa do que está. "Sempre zombei de todo pensador que não zombou de si mesmo", assim começa Nietzsche seu livro A gaia ciência. Uma autocrítica é sempre enriquecedora.
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> ¹Aqui há uma história e uma referência bibliográfica. Conta-se que Einstein, visitando o Brasil, foi acompanhado por um acadêmico ilustre que de tempos em tempos retirava uma caderneta do bolso e escrevia alguma coisa. O cientista lhe perguntou: "O que o senhor tanto escreve assim?" O nosso acadêmico: "Cada vez que uma idéia nova me ocorre, eu a anoto, para não a esquecer. O senhor não faz a mesma coisa?" E a resposta de Einstein teria sido: "Não, eu só tive uma idéia na vida".
> A referência bibliográfica é ao livro de Isaiah Berlin, The Fox and the Hedgehog, que obviamente não é a fonte da historieta acima. Berlin distingue os pensadores ouriços, que perseguem uma única idéia na vida, dos pensadores raposas, que percorrem um sem-fim de idéias. Hegel seria um ouriço, Nietzsche uma raposa. Tolstoi, a cujo estudo Berlin dedica o livro, seria uma raposa que se esforçou a vida toda por ser ouriço.
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> Renato Janine Ribeiro
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> Próxima semana: Autoridade e poder na avaliação
> Semanas anteriores:
> Transparência - 19/09/2007
> Solidariedade e cooperação na avaliação da pós-graduação - 06/09/2007
> Mestrado profissional, mestrado acadêmico e doutorado - 30/08/2007
> Inserção social - 23/08/2007
> Os Aplicativos da Avaliação - 15/08/2007
> Os critérios da avaliação - 10/08/2007
> Avanços na transparência - 02/08/2007
> A avaliação: quem faz, quem decide - 27/07/2007
> Para que serve a avaliação da Capes - 18/07/2007
>
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Lilia I. Arany-Prado
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