[forum-prof] No site da CAPES

Maria A. Silva maria.a.dasilva at terra.com.br
Thu Sep 27 21:32:39 BRT 2007


Gosto muito de Berlin, mas sinceramente acho que um meio termo entre ouriço
e raposa seria mais adequado.
Só que não encontro nada, nesse meio termo, melhor do que uma hiena...
 
Alguém tem idéia melhor?
 
Abraços,
Maria Aparecida
 
http://www.capes.gov.br/servicos/salaimprensa/artigo_avaliacaotrienal.html

Avaliação Trienal 2004-2006

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A pós-graduação e os gênios

A antropóloga Eunice Durham, minha colega na Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas da USP, foi presidente da Capes. No exercício desse
cargo, visitou a Congregação da Faculdade e criticou os professores não
produtivos. Um professor presente, pessoa a quem respeito muito, argumentou:
"Eunice, mas deste jeito Espinosa (que publicou pouquíssimo em vida) nunca
teria sido aceito pela Capes como professor!" 

E a professora Eunice respondeu: "O problema é que todos os que não publicam
acham que são Espinosa". 

Poderíamos transformar esta questão num silogismo errado: Sócrates não
escreveu nada (primeira premissa); Sócrates foi um gênio (segunda premissa);
quem não escreve nada é gênio (conclusão). Mesmo intuitivamente, dá para
perceber que aqui há um erro lógico sério. Quando muito, poderíamos concluir
que mesmo quem não escreve nada pode ser um gênio. Não mais que isso. 

Podemos também mostrar as mudanças na forma pela qual se dá a produção
científica. No século V a.C., quando viveu Sócrates, ou mesmo no século
XVII, quando floresceu Espinosa, os custos da pesquisa científica eram
bastante baixos, ela se fazia por indivíduos mais do que por grupos (embora
houvesse escolas e discípulos em Atenas, e Espinosa fosse contemporâneo da
criação da Royal Society - que, por sinal, não aceitou entre seus membros
Thomas Hobbes). Hoje, sem uma rede de interlocutores, boas bibliotecas e
laboratórios, pouco se faz em termos de ciência ou de geração de
conhecimento de qualidade. 

Mas cabe a questão: um sistema que se baseia na avaliação externa por pares
e privilegia a produção científica nos melhores periódicos ou editoras de
alguma forma facilita - ou dificulta - a emergência de gênios? Creio que,
nos artigos anteriores, ficou bastante claro que certas críticas à avaliação
da Capes, como o "publish or perish", o "produtivismo" e outras, só podem
ser feitas por quem não tem a menor idéia do que é essa avaliação. Por isso,
passamos aqui a outro patamar. 

O dado preliminar é: hoje temos um sistema científico de alta qualidade, que
em larga medida confere a qualidade do trabalho novo que entra. Mas há
trabalhos que esse sistema recusa. Muitos dos que se opõem aos sistemas de
avaliação, de revisão por pares e outros, alegam que o sistema é enviesado e
privilegia, por exemplo, quem já está dentro (os insiders) em detrimento dos
outsiders. 

Isso pode, claro, ocorrer. Cabe a todo sistema de avaliação reduzir ao
mínimo o peso dos preconceitos na entrada do novo. Todo cientista
responsável é capaz de aceitar a qualidade de trabalhos com os quais não
concorda - ou deveria ser capaz de aceitá-la, isto é, de distinguir muito
bem o acordo/desacordo e a qualidade/falta de qualidade. E o dado empírico é
que, da ciência rejeitada, dos trabalhos propostos à publicação e recusados,
ou, de modo geral, dos trabalhos que a academia não aceita, uma fração
mínima tem mesmo qualidade. Por mais que uma vertente romântica goste da
idéia do gênio incompreendido, o silogismo "Sou incompreendido. Um grande
cientista, artista ou pensador foi incompreendido. Portanto, todos os
incompreendidos são grandes (cientistas, artistas ou pensadores)." é falso.
Não procede. 

Gênios 
No entanto, existe um número de pessoas, difícil de quantificar, que
efetivamente rompem com os padrões vigentes e conseguem produzir uma obra de
destaque. O mito romântico não seria tão forte se não tivesse uma base de
realidade. Há exageros, como o que diz que Einstein foi mau aluno e de
repente se tornou bom: na verdade, apenas mudou o sistema de notas no seu
país natal, de modo que a escala se inverteu e quem era bom aluno (como ele)
continuou sendo, embora a nota de um ano para outro passasse de 1 para 10,
ou de 10 para 1. Mas o novo também é rejeitado, ainda que depois se imponha.


A nossa questão então é: um sistema de avaliação por pares facilita, ou
dificulta, a emergência do gênio? Ou a do novo? Podemos responder nas duas
direções. Podemos supor que, formando uma grande massa de pesquisadores em
física, ou filosofia, que dialogam entre si, que conhecem cada vez mais, nós
facilitamos que alguns deles se despontem pela sua originalidade e se alcem
à condição de gênios - ou que, pelo mesmo processo, nós os tornamos
homogêneos e pouco abertos à novidade. Tendo mais a acreditar na primeira
opção, mas são assuntos abertos à discussão. E, de todo modo, o advento da
novidade, ou da genialidade, nunca é fácil. 

Então, poderíamos deslocar a questão e formular duas hipóteses. Aliás, as
idéias expostas neste artigo são claramente pessoais e nada têm de
institucional. Não são as idéias de um diretor de avaliação, mas são
hipóteses de um professor que aprendeu na e com a Capes. Não empenham a
agência, nem a mim mesmo: são como as idéias que o sobrinho de Rameau, no
livro de Diderot, manda passearem. Caminhar sempre foi útil para pensar. 

A primeira é que, talvez, o gênio não dependa tanto de sua formação. Se
pensarmos no gênio, num sentido bastante exigente, como alguém que faz o
balanço entre respeitar as convenções (que são tão necessárias até para o
convívio social) e criar o novo pender para o segundo lado, então poderíamos
pensar que o gênio terá dificuldades de convívio, será obcecado, talvez seja
uma pessoa de poucas (mas excelentes) idéias¹ . Esta é uma hipótese, que
poderia ser reforçada com a teoria do desafio, desenvolvida por um
historiador hoje pouco lembrado, A. J. Toynbee, em seu A Study of History.
Toynbee sustentava que uma civilização se desenvolvia mais quando tinha de
enfrentar um desafio (por isso, em lugares muito aprazíveis a civilização
não chegou a um grande avanço), mas não um desafio excessivamente grande
(daí que, nos desertos e nos gelos extremos, ela também não tivesse seus
melhores escores). Pode ser que o gênio tenha a ver com o desafio e, por
isso, escolas para gênios não sejam a melhor maneira de fazê-los desenvolver
suas potencialidades. Talvez seja mais eficaz a dificuldade (se não extrema)
do que a facilidade. Talvez. 

A segunda questão é se a missão da avaliação - e por extensão das agências
estatais de fomento - é formar gênios. Pelo que sugeri acima, gênios não são
formados de fora para dentro. Podem ser ajudados (talvez, ao serem
dificultados). Eles se formam a si mesmos (com alguma ajuda/dificuldade).
Mas o que um projeto de Estado, ou de sociedade, pode realizar é -
possivelmente - a formação de uma massa significativa de pessoas bem
capacitadas a desenvolver pesquisas e a adiantar o conhecimento. Por isso
Eunice Durham tinha razão: não é qualquer improdutivo que é um Espinosa; e
poderíamos acrescentar: e não está em nossas mãos o segredo de como formar
Espinosas e Sócrates. 

Tudo isso posto, e neste mais pessoal de meus artigos na presente série, o
que precisamos é não apenas formar pessoas capacitadas, mas gerar
constantemente a capacidade de elas criticarem o próprio sistema em que se
formaram. Estes anos, temos discutido muito a avaliação. Acreditamos que,
com isso, ela avançou. É preciso repor em xeque as frases e idéias aceites.
Isso deveria estar mais na agenda da pesquisa do que está. "Sempre zombei de
todo pensador que não zombou de si mesmo", assim começa Nietzsche seu livro
A gaia ciência. Uma autocrítica é sempre enriquecedora. 


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¹Aqui há uma história e uma referência bibliográfica. Conta-se que Einstein,
visitando o Brasil, foi acompanhado por um acadêmico ilustre – que de tempos
em tempos retirava uma caderneta do bolso e escrevia alguma coisa. O
cientista lhe perguntou: "O que o senhor tanto escreve assim?" O nosso
acadêmico: "Cada vez que uma idéia nova me ocorre, eu a anoto, para não a
esquecer. O senhor não faz a mesma coisa?" E a resposta de Einstein teria
sido: "Não, eu só tive uma idéia na vida". 
A referência bibliográfica é ao livro de Isaiah Berlin, The Fox and the
Hedgehog, que obviamente não é a fonte da historieta acima. Berlin distingue
os pensadores ouriços, que perseguem uma única idéia na vida, dos pensadores
raposas, que percorrem um sem-fim de idéias. Hegel seria um ouriço,
Nietzsche uma raposa. Tolstoi, a cujo estudo Berlin dedica o livro, seria
uma raposa que se esforçou a vida toda por ser ouriço. 


Renato Janine Ribeiro 

Próxima semana: Autoridade e poder na avaliação 

Semanas anteriores: 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
19_09_07.pdf> Transparência - 19/09/2007 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
06_09_07.pdf> Solidariedade e cooperação na avaliação da pós-graduação -
06/09/2007 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
30_08_07.pdf> Mestrado profissional, mestrado acadêmico e doutorado -
30/08/2007 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
23_08_07.pdf> Inserção social - 23/08/2007 
Os Aplicativos da Avaliação
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
15_08_07.pdf>  - 15/08/2007  
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
10_08_07.pdf> Os critérios da avaliação - 10/08/2007 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
02_08_07.pdf> Avanços na transparência - 02/08/2007 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
27_07_2007.pdf> A avaliação: quem faz, quem decide - 27/07/2007 
 
<http://www.capes.gov.br/opencms/export/sites/capes/download/artigos/Artigo_
18_07_07.pdf> Para que serve a avaliação da Capes - 18/07/2007

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