[forum-prof] Texto para o Ibmec versao preliminar

Felipe Coelho coelho at if.ufrj.br
Tue Aug 28 18:35:22 BRT 2007


Prezado Ribas e demais colegas

Li o teu texto, está interessante, mas acho que os problemas vem de bem 
longe. Infelizmente a Independência do Brasil levou à adoção de um modelo 
universitário que desprivilegiou as ciências e as tecnologias, ao contrário 
do modelo da universidade de Coimbra que o Marquês de Pombal reformara. 
José Bonifácio, fruto dessa universidade reformada, era geólogo e autor de 
trabalhos científicos! Esse modelo "brasileiro" privilegiava dar uma 
tintura jurídica aos filhos das elites. Paralelo a ele havia um modelo 
político e outro jurídico que valorizavam em muito a posse de um diploma de 
Direito. A demanda social por estudar Direito foi assim imensa desde 1822, 
criamos a "universidade dos bacharéis". Esse modelo claramente não 
beneficiou nem ao menos o ensino e a pesquisa do Direito, mas levou às 
fábricas de diplomas.

Um livro interessante sobre a universidade hispano-americana conta 
exatamente a mesma história: "As universidades no desenvolvimento social da 
América Latina", de Hanns-Albert Steger, Tempo Brasileiro, 1970.  Enquanto 
as universidades hispânicas pre-independência, em geral administradas por 
ordens religiosas, enfatizavam formar bons cristãos, essas universidades 
pós-independência eram "universidades de advogados", que almejavam formar 
quadros para as administrações públicas desses países.O autor (um alemão 
especialista em educação latino-americana) diz que o grande teórico 
hispano-americano dessa transição de modelo universitário foi o venezuelano 
Andres Bello, reitor durante 20 anos da Universidade do Chile, em meados do 
século XIX . Ele foi também o autor de um Código Civil inspirado no Código 
Napolão que ainda influencia o direito nesses países.

Tenho um artigo de 1959, da revista Brasiliense, onde os sociólogos 
Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni apontavam exatamente para isto, 
formarmos muitos advogados e poucos engenheiros. Em 1957 por exemplo 
tínhamos 79505 estudantes no ensino superior: 27,30 % dos estudantes 
estavam em Direito, 18, 45% nas faculdades de filosofia, ciências e letras 
(que essencialmente formavam professores), 13,10% em Medicina, 10,65% em 
Engenharia e 2,80% em Agronomia e Veterinária Não apenas o número total de 
alunos era ridículo como as distorções são gritantes: o percentual em 
Direito (muito superior ao de hoje) e o número ridículo de alunos de 
Engenharia, Agronomia e Veterinária.

O triste é que enquanto essa "universidad de abogados" hispano-americana 
era um avanço em relação às coloniais, a nossa "universidade de bacharéis" 
era um retrocesso em relação à Coimbra revolucionada pelo Pombal, onde se 
tirou Aristóteles e colocou-se a pesquisa científica...

Abraços e se alguém quiser copiar o livro ou o artigo é só passar na minha 
sala (310, bloco A, CT).





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