[forum-prof] Re: Cargas horárias não revelam as dificuldades dos alunos nem o empenho dos docentes. (fwd)

Gregorio Malajovich gregorio at labma.ufrj.br
Wed Aug 1 19:03:22 BRT 2007


Felipe,

Gostei da frase. A concepção de Universidade como o lugar onde
os jovens vem aprender é boa. A experiência mostra que deve
haver cobrança e exames. Ainda assim é produtivo oferecer cursos,
dentro desse espírito.

Isso é possível, é feito, mas na UFRJ não é generalizado. Mesmo
propostas modestas (oferecer alguns cursos nesse nível e espírito,
ou algumas disciplinas) encontram resistência ferrenha, até mesmo
sabotagem por setores da UFRJ. São problemas menores, fáceis de resolver, mas 
que ferem interesses poderosos.

Por exemplo, AS BIBLIOTECAS CONTINUAM FECHADAS. Nenhuma Universidade
de verdade fica dois meses sem bibliotecas. Ao negar aos alunos o
acesso ao conhecimento, estamos excluindo eles do mundo acadêmico.

A solução extremamente simples é colocar a existência da Universidade
como espaço de aprendizado  acima dos interesses corporativos e políticos.

Se isso exige cortes de ponto, demissões, disponibilidades, e o fim
desse sistema político arcaico e obscurantista, temos que pesar custo e 
benefícios.

Por sinal, não consigo lembrar de muitos exemplos históricos de
funcionários públicos vitalícios escolhendo o próprio chefe
por um mandato temporário. Nem a igreja católica faz isso.

Talvez as juntas militares ?

[],
Gregorio







On Tue, 31 Jul 2007, Felipe Coelho wrote:

> Prezado Abraham
> 
> Tua questão é importante, ela envolve o conceito de universidade, mas tem 
> implicações legais. As leis obrigam os alunos a assistir muitas aulas e assim 
> os obrigam a  ter uma atitude passiva de aprendizado. Ampliando tua questão, 
> esses aspectos formais - regime seriado versus regime de créditos ou método 
> de avaliação (quantas provas, etc) - são a ponta do iceberg. 
> (Particularmente, eu gosto muito do regime de créditos.) A questão maior é de 
> como encaramos a missão do ensino na universidade. Temos que dar menos aulas 
> e insistir que os alunos estudem mais sozinhos, em grupo ou conversando com 
> professores, caso contrário estaremos formando pessoas que terão dificuldade 
> em sua vida pós-recebimento do diploma.
> 
> O reformador da universidade inglesa, o cardeal Newman, tem uma frase que 
> acho fantástica e que citei num artigo que escrevi sobre o Ciclo Básico 
> (http://www.sbfisica.org.br/rbef/Vol24/Num1/v24_47.pdf )
> "Se eu pudesse escolher entre uma pretensa universidade sem regime de 
> internato e sem supervisão de orientadores, a qual concederia seus diplomas a 
> toda pessoa aprovada em um exame sobre matérias variadíssimas, e uma 
> universidade sem professores, sem exames, que se contentasse em fazer 
> coabitar jovens, durante três ou quatro anos, antes de sua partida para a 
> vida ... eu preferiria sem hesitação a universidade que não fizesse nada 
> àquela que exigisse de seus estudantes o conhecimento de todas as ciências 
> existentes."(The Idea of a University, Cardeal Newman, o grande reformador da 
> universidade inglêsa; texto escrito em 1852 e citado em ''Concepções de 
> Universidade", Drèze e Debelle, UFC, 1983).
> 
> A frase é extremista mas esse é o espírito: a universidade tem que ter jovens 
> que querem aprender em contato com professores que os querem orientar e não 
> ter jovens que passam por detalhadas grades curriculares e que fazem milhares 
> de provas, sob a fiscalização contínua de professores que os obrigam a 
> estudar... O problema é que o modelo inglês exige jovens de extrema 
> curiosidade intelectual e hoje o que vemos, até no Reino Unido, é muita gente 
> que apenas se preocupa com o que vai cair na prova. O importante é passar e 
> não aprender, aí gastam um tempo enorme decorando gabaritos de listas e de 
> provas. Na semana passada eu estava na fila do almoço no Kilowatts e tinha 
> uns alunos comentando que se deram bem pois tinham decorado a prova antiga de 
> um professor e este a repetira...
> 
> E nós professores gastamos muito tempo repetindo o que está escrito no livro! 
> Um colega meu deu um curso de física para formandos de física e o jeito que 
> teve de obrigá-los a estudar foi o de dar uma lista de exercícios por aula... 
> Funcionou mas é triste. Uma versão, mesmo que fosse diluída, da universidade 
> inglesa nos faria bem.
> 
> Abraços
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> 
> NAt 14:44 31/07/07 -0300, Abraham Zakon wrote:
> 
>> Meus prezados Felipe, Maria e demais colegas.
>> 
>> 
>> 
>> 1 - Cursei a graduação no regime seriado. Os alunos regulares tinham tempo 
>> para estudar, estagiar e lazer.
>> 
>> 
>> 
>> 2 - No regime de créditos e requisitos, os docentes destacam as cargas 
>> horárias globais menores para os cursos, que só incluem aulas teóricas e 
>> experimentais.
>> 
>> 
>> 
>> 3 - Na minha graduação, a carga horária era maior, mas incluía horas de 
>> aulas teóricas, laboratoriais e de estudo em casa ou com os colegas.
>> 
>> 
>> 
>> 4 - Enquanto isso nas disciplinas semestrais e individuais, cada docente faz 
>> o que quer.
>> 
>> 
>> 
>> 5 - Alguns dão 3 provas, outros dão 2 provas e até 4 provas e outros aplicam 
>> provas com duração de 5 a 6 horas... contrariando determinações da 
>> Congregação. E as evasões e retenções se sucedem...na graduação.
>> 
>> 
>> 
>> 6 - Eu aplico 1 teste (sem necessidade de estudar antecipadamente) no 
>> horário de aulas e 2 provas com consulta livre que obrigam os alunos a irem 
>> pesquisar nas Bibliotecas. Ontem, um dos meus alunos de pós-graduação 
>> comentou que já encontrou vários alunos de graduação que preferem o estilo 
>> de estudar para as provas comuns (não importando a sua duração), porque dá 
>> menos trabalho.  Um dos ex-presidentes da nossa Associação de Ex-Alunos 
>> constatou a diferença entre dois alunos de graduação, um dos quais havia 
>> cursado uma disciplina comigo e que sabia encontrar os dados necessários no 
>> seu estágio com maior facilidade.
>> 
>> 
>> 
>> 6 - Eu leciono para que eles aprendam e discutam comigo em sala de aula a 
>> matéria básica e encontrem o que precisem tanto nos livros e, também, na 
>> Internet, de forma complementar. O mais importante é reunir conceitos, 
>> dados, figuras e fotografias que façam eles tomarem conhecimento de um mundo 
>> novo: o profissional e industrial da Engenharia Química, sem esquecer do 
>> lado humano ou social (porque eles serão pessoas de nível superior).
>> 
>> 
>> 
>> 7 - Não sei quantas horas de estudo eles, alunos, ocupam com minhas 
>> disciplinas, cujo estilo de cobrança é o mesmo. Eles podem me encontrar por 
>> e-mail e celular. Vários alunos utilizam estes meios de comunicação comigo. 
>> Respondo da melhor maneira possível. Às vezes, eles querem a resposta 
>> pronta... e eu mando procurar dando-lhes alguma pista...
>> 
>> 
>> 
>> 8 - Os melhores tempos da Escola (Nacional) de Química foram os do regime 
>> seriado, onde , pelo menos 95% dos alunos se formavam no prazo previsto pela 
>> grade curricular. A freqüência às aulas era muito elevada, com raras 
>> exceções. Não havia estágio obrigatório, o que hoje enlouquece os alunos que 
>> precisam conciliar horários de aulas
>> 
>> 
>> 
>> 9 - Hoje, os alunos vão à Formatura (que virou um espetáculo televisivo para 
>> encantar as famílias que nunca foram ao programa do Chacrinha) sem totalizar 
>> os créditos para conclusão do curso e diplomação. Depois conseguem emprego 
>> (ou apenas uma promessa) e pressionam os professores de disciplinas 
>> regulares ou de projeto final de curso para serem aprovados rapidamente. 
>> Quando ficam reprovados... o mundo vem abaixo, né? Então, o professor que 
>> exige o mínimo razoável para dignificar o diploma que a UFRJ concede se 
>> torna um vilão.
>> 
>> 
>> 
>> 10 - Essa vilania, que conquistamosquando trabalhamos com seriedade, é 
>> decorrência não do número de horas estudadas, que deveriam valorizar o 
>> aprendizado do aluno, mas da facilidade que o aluno encontra em passar numa 
>> ou noutra disciplina e... ficar livre dela! Eles querem concretizar seus 
>> sonhos de progresso pessoal.
>> 
>> 
>> 
>> 11 - Nesse caos acadêmico onde se discutem esses detalhes, pergunto (porque 
>> conheço os alunos e seus apertos): qual é a freqüência real dos alunos às 
>> aulas nos meses de maio-junho e outubro-novembro quando coincidem o estágio 
>> obrigatório e horários das provas misturadas das Escolas e Institutos ou do 
>> mesmo departamento?
>> 
>> 
>> 
>> 12 - No momento, passei uma boa parte de minhas fériasde julho, corrigindo e 
>> orientando um projeto final de curso de graduação, onde as horas reais de 
>> aulas ministradas não podem ser contadas num relógio de ponto nem 
>> classificadas por Pareceres ou Resoluções dos Colegiados Superiores.
>> 
>> 
>> 
>> 13 - Estou convencido de que muitos de Vocês fazem o mesmo por um sentimento 
>> de dignidade ou solidariedade que pode ser descrito como amor à arte. 
>> Felizmente, minhas orientadas estão entendendo o que deve e pode ser feito e 
>> estão tentando corresponder ao que se espera delas.
>> 
>> 
>> 
>> 14 - Se não voltarmos ao regime seriado, estaremos fragilizando cada vez 
>> mais as universidades federais com toda essa dispersão e fragmentação 
>> reveladas, coroando-as com discussões inúteis. E isso não é saudosismo nem 
>> menosprezo à discussão que Vocês realizaram, porque vários cursos de 
>> graduação brasileiros já fizeram isso com muito sucesso, como o de 
>> Engenharia Civil da Universidade Federal de Santa Maria. Outros, 
>> aparentemente, nem saíram do regime seriado. Será que o INEP tem dados a 
>> esse respeito?
>> 
>> 
>> 
>> 15 Continua faltando realizar um grande Congresso Interno (Acadêmico) na 
>> UFRJ para se discutir além do REUNI a nossa concepção de trabalho 
>> institucional, que integre os indivíduos num coletivo mais homogêneo.
>> 
>> 
>> 
>> Abraços.
>> 
>> 
>> 
>> Abraham Zakon
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> 
>> ----------
>> De: forum-prof-bounces at if.ufrj.br [mailto:forum-prof-bounces at if.ufrj.br] Em 
>> nome de Felipe Coelho
>> Enviada em: terça-feira, 31 de julho de 2007 13:59
>> Para: Maria A. Silva; 'Prof. Luiz Eduardo'
>> Cc: masilva1956 at uol.com.br; forum-prof at listas.if.ufrj.br
>> Assunto: Re: RES: [forum-prof] Hora-aula: defina
>> 
>> 
>> 
>> Oi Maria e demais colegas
>> O CNE discutiu isso mas, no meu entender, a posição por ele tomada é 
>> inexequível e por isso tem sido ignorada. Para eles a carga horária mínima 
>> de X horas num curso quer dizer X horas de 60 minutos. Como as horas-aula 
>> geralmente tem 50 minutos, um curso que tiver essa carga mínima de horas, 
>> mas for estruturado em horas-aula de 50 minutos, terá que aumentar em 20% 
>> sua carga horária para passar de 50 para 60 minutos cada aula. No meu 
>> entender essa discussão fere a nossa autonomia didática frontalmente, é o 
>> CNE querendo decidir se damos ou não intervalo entre as aulas. Se não dermos 
>> intervalo, os alunos aprenderão mais???
>> Não apenas o CNE decide cargas horárias mínimas absurdamente altas como 
>> também quer aumentá-las em 20% com a argumentação ridícula de que a hora tem 
>> 60 minutos e por isso a hora-aula tem 60 minutos. Abaixo seguem os dois 
>> pareceres da da Câmara de Ensino Superior do CNE.
>> Abraços
>> http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/pces261_06.pdf
>> http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/pces008_07.pdf
>> 
>> 
>> 
>> !DSPAM:1071,46af761815007224784171!
>> No virus found in this incoming message.
>> Checked by AVG Free Edition.
>> Version: 7.5.476 / Virus Database: 269.11.0/927 - Release Date: 30/07/07 
>> 17:02


More information about the Forum-Prof mailing list