[forum-prof] Re: Declíniosituaçãoestatísticas da WI PO)

Luiz Felipe Coelho coelho at if.ufrj.br
Thu Feb 18 14:59:29 BRST 2010


Oi Leandro

Seria bem interessante esse estudo, poderia ser 
uma tese do HCTE (programa de história da ciência 
e da tecnologia)! Certamente na biblioteca de 
obras raras do CT e  no Museu da Escola 
Politécnica temos arquivos e livros sobre o 
assunto, sem falar na Igreja Positivista na 
Glória. Por exemplo, na semana passada achei 
jogada fora num corredor do CT uma biografia do 
Benjamin Constant, que fez uma reforma 
educacional baseada no ideal positivista. O 
livro, impresso pela Igreja Positivista no início 
do século XX, aparentemente fora jogado fora por 
um professor da Politécnica que deve ter se 
aposentado (estavam junto com ele teses de 
Engenharia Civil dos anos 70). Repassei o livro 
para a Biblioteca de Obras Raras do CT.

O positivismo se preocupava com uma análise 
precisa da Natureza que seria feita pela 
Matemática, que seria a rainha das ciências. Ao 
escrever este mail dei uma busca na Internet e 
descobri que a escola primária Francisco Cabrita, 
onde estudei, tem esse nome em homenagem a um 
autor positivista de um livro sobre Geometria.
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742000000100009&lng=pt&nrm=iso#n010

O positivismo discordava profundamente da 
universidade medieval mas não era simpático à 
universidade iluminista baseada nas ciências da 
Natureza. Ele exagera na matematização mas muitos 
nas ciências humanas e sociais brasileiras vão na 
direção oposta, tudo é ideologia sem necessidade 
de levantar dados concretos. Na Educação então 
chamar alguém de positivista é a pior ofensa... O 
positivismo sério exige dados mas sabe que nem 
tudo são números, só que aqui no Brasil 
importamos a versão simplificada e tivemos a 
reação igualmente simplificada: vou fazer 
História, Geografia, Educação ou Serviço Social, 
para que preciso de lidar com números? Aí é só 
chamar de positivista quem fala em calcular um 
desvio padrão, uma média ou uma correlação de variáveis...

Com o marxismo sério aconteceu o mesmo, 
importamos a versão que diz que o modo de 
produção determina inteiramente a superestrutura 
ideológica, aí a Educação inteira vira uma arena 
da luta de classes onde só os ingênuos pensam 
estar ensinando algo, nós estamos é apenas 
formando mão de obra para o acúmulo de maisvalia 
pelo Capital... Quanto à História, à Sociologia e 
ao Urbanismo todas as sociedades e todas as 
cidades são iguais, o que conta é a lógica do modo de produção...

Tanto o positivismo quanto o marxismo, correntes 
científicas surgidas no século XIX, tem falhas 
mas são bem mais sérios que isto!

Abraços, Felipe



At 20:39 17/2/2010, leandrofilho at uol.com.br wrote:

>Felipe,
>Muito oportuna a sua intervenção, tanto no 
>tocante ao excelente fragmento sobre Faraday, 
>como também sobre o pesado legado dos 
>positivistas e a eventual hipótese (que pode até 
>gerar um tese), acerca da influência dos 
>positivistas na eventual resiliência da esquerda 
>tradicional do país à  pesquisa científica.
>
>Seria um estudo dos mais interessantes, desde 
>que essa hipótese pudesse ser confirmada e 
>também pelo paradoxo de ela ter gerado uma 
>eventual aversão à  pesquisa científica entre os 
>esquerdistas, já que acima de tudo a filosofia e 
>a religião positivistas tinham essa denominação por se pretenderem científicas.
>
>Com efeito, a influência dos positivistas aqui 
>no Brasil foi de tal ordem, que em 1881 Miguel 
>Lemos fundou a Igreja Positivista do Brasil, no 
>Rio de Janeiro, no bairro da Glória, 
>estimulando a criação de novos templos até no Rio Grande do Sul.
>
>E essa disseminação da religião iluminista, que 
>acredita na ciência como a única forma de se 
>alcançar a verdade,a ordem e o progresso, foi 
>praticamente única em todo o mundo.
>
>Leandro





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