[forum-prof] RESAZ: Declínio das patentes nomundo e a situação do Brasil - rotular não ajuda
Abraham Zakon
azakon2 at globo.com
Wed Feb 17 10:16:46 BRST 2010
Bom dia.
1 - Concordo com o colega Roberto Faria, porque leciono algumas disciplinas
tecnológicas que dependem do conhecimento científico crescente.
2 - Sem uma excelente base conceitual - oriunda das Ciências - não se produz
nem tecnologia nem produto econômico.
3 - Há quem pretenda eliminar o Instituto de Química (atualmente responsável
pelo ensino das Químicas Básicas) porque existe a Escola de Química (que
leciona várias Químicas Tecnológicas, diversos cursos das Engenharias
Químicas e a Química Industrial).
4 - Se esses gestores do MEC conseguirem fazer isso, então, vão eliminar o
Instituto de Física e o Instituto de Matemática, porque a Escola Politécnica
tem seus próprios professores lecionando Física e Matemática aplicadas...
5 - As patentes são mais do que o reflexo da atividade econômica, e há
docentes que optam por produzir patentes ao invés de produzir "papers".
6 - Mas, produzir patentes é muito mais trabalhoso e demanda muito mais
tempo do que produzir "papers". E isso faz com que a noção de produtividade
acadêmica seja totalmente desequilibrada perante os "modelos adotados pela
CAPES e outras instituições de fomento". Isso afeta a distribuição de verbas
de bancada e de bolsas de estudo para mestrandos e doutorandos.
7 - Sempre que posso, oriento meus alunos de graduação que fazem seus
"projetos finais de curso" a tentarem elaborar patentes de processos
químicos industriais ou de equipamentos para essa finalidade.
8 - Com isso, procuro aproximar ciência, engenharia e tecnologia com a visão
de mercado, e fazemos estudos das patentes divulgadas nos endereços
eletrônicos apropriados no exterior. E os alunos passam a enxergar o que
existe fora das fronteiras dos carnavais e estádios de futebol e das praias
de muito sol e cerveja.
9 - Infelizmente, o modelo bacharelístico existe, porque há várias
instituições federais e particulares multiplicando-se, ou replicando
precariamente, as universidades consagradas, pois o mercado de trabalho quer
pessoas diplomadas como condição inicial para absorver a mão-de-obra.
10 - Na área da Engenharia Química criou-se mais um curso no CETIQ-SENAI
(anunciados nos ônibus do Grande Rio) e já existiam em torno da Baía de
Guanabara os cursos da UFRJ, UFF, UFRuralRJ, UERJ, IME, PUC. Como o SENAI
dispõe de recursos financeiros e um padrão de organização ocupacional
invejáveis, minha percepção é a de que estamos sendo diluídos
institucionalmente... E ainda temos os CEFET´s que foram transformados em
IFES´s e que originalmente eram escolas técnicas...
11 - O pior disso tudo é que os empresários, inclusive das empresas
estatais, buscam resultados ou competências no mercado internacional. E
quase sempre importa-se tecnologia, mesmo que alguém tenha desenvolvido algo
similar aqui no país.
12 - Se nós deixarmos de valorizar a qualidade do ensino e pesquisas que
praticamos, rotulando para menosprezar os colegas e o que já se fez de bom,
continuaremos sendo diluídos.
13 - No caso das Químicas, existe a necessidade de recuperar a estrutura
departamental da Escola Nacional de Química para convertê-la na unidade
educacional de excelência do ensino de graduação, agregando à sua
Congregação os Departamentos do Instituto de Química somados aos atuais
Departamentos da EQ-UFRJ. Essa estrutura recuperada deve respeitar tanto a
destinação dos graduandos para o mercado externo de trabalho quanto para os
cursos de pós-graduação.
14 - Isso significa também manter as instituições de pesquisa vigentes:
IQ-UFRJ, IMA-UFRJ, NPPN-UFRJ, TPQBq e PEQ-COPPE-UFRJ e PEMM-COPPE-UFRJ, para
gerar novos mestres e doutores nas respectivas áreas de competência e, se
houver oportunidade, novas patentes.
Abraham Zakon
Escola de Química
-----Mensagem original-----
De: forum-prof-bounces at if.ufrj.br [mailto:forum-prof-bounces at if.ufrj.br] Em
nome de Roberto de Barros Faria
Enviada em: terça-feira, 16 de fevereiro de 2010 20:06
Para: adjuntos-ccmn at listas.if.ufrj.br
Cc: forum-prof at listas.if.ufrj.br
Assunto: Re: [Adjuntos-ccmn] Re:[forum-prof] Declínio das pate ntes nomundo
e a situação do Brasil( estatísticas da WI PO)
Gostaria de alertar aos colegas que sair dizendo que temos um "modelo
acadêmico bacharelístico voltado para a produção de papel, seja na forma de
papers ou de diplomas", atende muito bem aos interesses daqueles que querem
manter o atrazo brasileiro. Sem ciência básica não faz nada a não ser copiar
os outros. Acho que o Prof. Luis Paulo deveria ter mais cuidado com as suas
declarações. Tem muita gente mal intencionada que certamente gostaria muito
de usar uma opinião como esta para justificar a redução no financiamento da
pesquisa em geral. É muito difícil de se saber quando um trabalho é aplicado
ou fundamental e também se um trabalho fundamental terá ou não uma aplicação
relevante.
Um bom exemplo para reflexão é o resultado de Einstein, conhecido de
todos, mostrando que matéria e energia são equivalentes, a partir da teoria
da relatividade.
Sem essa noção básica teríamos dificuldades no entendimento dos processos de
fusão e fissão nuclear que produziram bombas atômicas e reatores nucleares.
Por favor, não sejamos ingênuos ao acreditar que só o que, no momento,
entendemos como aplicado é que vale a pena pesquisar. Será que por um acaso
estamos de volta aos ditames do positivismo?
Roberto de Barros Faria
Departamento de Química Inorgânica
Instituto de Química
Universidade Federal do Rio de Janeiro
---------- Original Message -----------
From: "Luis Paulo Vieira Braga" <lpbraga at im.ufrj.br>
To: coelho at if.ufrj.br, adjuntos-ccmn at listas.if.ufrj.br
Cc: forum-prof at listas.if.ufrj.br
Sent: Sun, 14 Feb 2010 18:28:42 -0300
Subject: [Adjuntos-ccmn] Re: [forum-prof] Declínio das pate ntes no mundo e
a situação do Brasil ( estatísticas da WI PO)
> O Brasil está muito mal na fotografia, porque patentes são mais
> reflexo da atividade econômica do que da científica(o artigo citado
> aliás mostra exatamente a correlação entre a crise mundial e o
> decréscimo no número de patentes). E em termos de PIB o Brasil está
> entre as 15 maiores economias do mundo, no entanto em termos de
> patentes estamos atrás de todos os países da Europa ocidental(exceto
> economias minúsculas), de vários países asiáticos - Coréia e
> Singapura(além , é obvio da Índia e China). Só ganhamos mesmo na África e
na América Hispânica.
>
> Esse é o resultado de um modelo industrial importador de tecnologia e
> de um modelo acadêmico bacharelístico voltado para a produção de
> papel, seja na forma de papers ou de diplomas.
>
> On Sat, 13 Feb 2010 20:40:24 -0200, coelho wrote
> > Colegas
> >
> > Acabou de sair um relatório da World Intellectual Property
> > Organization (WIPO), uma agência das Nações Unidas, mostrando a
> > evolução das patentes solicitadas nos últimos quatro anos,
> > detalhando país, grandes empresas e áreas de atividade. O artigo
> > está em
> > http://www.wipo.int/pressroom/en/articles/2010/article_0003.html ,
> > vale a pena olhar. Sugiro também que vejam um vídeo da conferência,
> > que dura alguns minutos e resume os dados. O link está na parte de
> > cima da página.
> >
> > A recessão fez cair em 4,5% o número das patentes no último ano,
> > principalmente nos EUA que caiu 11%, mas muitos países aumentaram:
> > China, Japão e Coréia do Sul.
> >
> > Nos últimos quatro anos a China cresceu mais de um fator 3 e agora
> > passou a França e está no quinto lugar. A produção de patentes da
> > Rússia está estagnada e é baixa, pouco superior à do Brasil hoje. O
> > Brasil aumentou bastante nesses 4 anos, passamos de algo como 0,15%
> > para 0,30%, mas isto ainda é muito pouco pois temos bem mais de 1%
> > da produção científica do mundo.
> >
> > Abraços e bom carnaval!
> >
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