[forum-prof] antropologia anti-cotas

Lilia Irmeli lilia at astro.ufrj.br
Mon Feb 8 20:42:18 BRST 2010


http://www.universidadenomade.org.br/?q=node/66

Da violência cordial da antropologia anti-cotas ou 'Mataram um estudante:
não
podia ser seu filho'

por Rodrigo Guéron[i]
Em 1968, quando o estudante Édson Luis foi assassinado pela polícia no
restaurante Calabouço, um grito correu as ruas do Rio levado pelos seus
colegas: “Mataram um estudante, podia ser seu filho!”. Esta palavra de ordem
trouxe boa parte da chamada classe média, até então assustada com as
passeatas, em apoio ao movimento contra a ditadura que culminou na passeata
dos cem mil. Lembrando dos mesmos cem mil descendo a Avenida Rio Branco,
Nelson Rodrigues sentenciava: “ninguém era Flamengo”.

Ainda que esta constatação não fosse nem de longe um pretexto para o grande
dramaturgo e escritor apoiar a ditadura como apoiou, a frase de Nelson se
referia ao que as imagens do movimento deixavam claro: não havia quase
nenhum
negro nas passeatas de estudantes, intelectuais e artistas do 68 brasileiro.

Em 2007, Camila Pitanga, mulher mestiça que gosta de se apresentar como
“negra” (porque deve saber muito bem que não se trata de uma questão
“biológica” ), afirmou que a ausência de modelos negras na São Paulo Fashion
Week “espelha o racismo existente na sociedade”. De uma generosidade
política
rara em sua geração de atores, Camila soube fazer repercutir a sua posição
na
mídia. Talvez até considerasse – ou não – que na verdade o racismo estava na
organização do evento: nos seus produtores e estilistas. Mas jamais poderia
dizê-lo, não só porque foi convidada por um destes para desfilar, sendo uma
das raras exceções de modelos negras, como também poderia ser processada se
dissesse isso.

De fato, se a mesma Camila iniciasse um movimento por modelos negras nas
passarelas, pela lógica de uma certa antropologia, sociologia, intelectuais
e
afins, que entregaram um manifesto contra as cotas no STF, a atriz ia ser
chamada de “racista”.

Ainda que não seja muito feliz a comparação de universidades com passarelas
de
moda, a mesma lógica é usada contra um dos mais importantes movimentos
sociais
do país recentemente, o dos prévestibulares para negros e pobres, como o
PVNC
e o Educafro, e o resultado prático da ação ao mesmo tempo política e
produtiva destes movimentos: alguns milhares de negros e pobres na
universidade – os primeiros em toda a história de suas famílias – e uma
mobilização dentro destas, desde uma pressão de fora, por uma política de
ação
afirmativa que já está em cerca de quarenta instituições de ensino superior,
sem falar os bolsistas do Prouni, programa que os signatários do manifesto
anti cotas agora também atacam.

Segundo esta espécie de categoria “intelectuais oficiais”, ou “intelectuais
celebridades” que se criou no Brasil, seriam estes movimentos os
responsáveis
por uma futura e perigosa introdução do racismo no Brasil. A lógica deste
pensamento é a seguinte: quase nenhuma modelo negra, mas quem exigir modelos
negras será racista; pouquíssimos estudantes negros, quase nenhum professor,
raríssimos médicos, economistas, engenheiros, cientistas, mas quem se
mobiliza
por um programa de ação afirmativa para reverter esta desigualdade é que é
racista.

Mas o que o assassinato do estudante Édson Luís, e os temores das mães de
classe média de perder os seus filhos tem com isso? Tudo se ficarmos tanto
no
tema “assassinato” quanto nos “temores de mãe”; mas agora de muitos jovens,
poucos estudantes, quase nenhum universitário: os milhares que morrem por
ano
nas nossas metrópoles. O Brasil com os recordes mundiais de jovens – na
imensa
maioria negros e mestiços –, assassinados nas metrópoles.

Assim enquanto alguns destes(as) senhores(as) antropólogos, sociólogos,
intelectuais e etc(as) temem a política de cotas, os jovens negros e pobres
temem ser assassinados. Relacionarei aqui então, como convém ao debate,
alguns
dos meus argumentos a favor da política de cotas, como já fiz em outros
artigos. Mas não sem antes assinalar que tenho a impressão de não estamos
diante de debate algum; mas de uma sofisticadamente perversa estratégia
política, um ardiloso jogo de poder do qual os(as) doutores(as) que
articularam o manifesto entregue no STF são protagonistas, deslocando-se
para
a posição de ideólogos de uma violenta máquina de propaganda que dispensa o
mínimo de honestidade intelectual. Em outras palavras, esta negação do
racismo, e a inversão da acusação, é a própria ação de um poder que
produziu,
e segue produzindo, uma das sociedades mais desiguais e violentas do mundo.

Esta estratégia consiste em, de um lado, não parar de repetir que “no Brasil
o
racismo não é o problema”, enquanto de outro a desigualdade constrói, no
espaço urbano, no mundo do trabalho e do ensino, a imagem dos negros e dos
mestiços como de um “menos”. Temos então um racismo que se manifesta
–“fala”–
a partir da própria realidade criada, e que começa exatamente ali onde tem
alguém dizendo “não somos racistas”, posto que faz parecer o lugar social
onde
se encontram a maior parte dos brasileiros negros e mestiços como uma
espécie
de “lugar merecido”, ou “ lugar natural”.

Dizer então que o problema do Brasil não é “racial”, mas “social”, é separar
o
inseparável. Ao longo de todo o século XX o racismo não parou de produzir
exclusão, concentração de renda, pobreza e violência. O cidadão não arrumava
emprego, era parado na blitz da polícia, era estigmatizado na escola, era
condenado a penas maiores nos tribunais, ou mesmo era considerado culpado a
priori, porque era negro. O racismo quando não estava nas falas – e também
estava – falava pela maneira como o lugar social dos negros e mestiços era
construído: no mundo do trabalho, nos espaços da cidade, nos meios de
comunicação, no acesso ao conhecimento.

E é exatamente porque o racismo é uma poderosa força social, que é
igualmente
falacioso opor à política de cotas o argumento que “a biologia já provou que
o
conceito de raça não existe”. Ora, o que esta discussão tem a ver com a
biologia ou com a genética? As políticas de ação afirmativa buscam desmontar
e
reverter o racismo e a desigualdade como algo que se construiu social e
historicamente. A questão não é raça como conceito biológico, mas a cor da
pele e as características físicas como forma de distinção social e como
mecanismo de produção de desigualdade, controle e violência.

Assim, as características físicas, a cor da pele dos jovens assassinados nas
metrópoles brasileiras dos anos 2000, nos levam ainda uma vez ao assassinato
do estudante Édson Luis. Mas desta vez por causa da diferença, e não da
semelhança. Lá em 68 os colegas de Édson, revoltados, foram em busca de um
prédio público onde velariam o corpo e a partir de onde se espalharia o
grande
movimento político de resistência à ditadura. Seria então um impressionante
espetáculo se os que sobreviveram e resistem ao extermínio diário que há nas
favelas e periferias brasileiras, e que esta resistência os levou até os pré
vestibulares para negros e carentes e ao movimento pró-cotas, resolvessem
fazer algo semelhante com o que o pessoal fez em 68: trazer os seus mortos
para algum prédio público. Por exemplo, para o de uma universidade como a
UFRJ, que tanto rejeita a política de cotas (embora inúmeros de seus
professores tenham assinado o manifesto pró-cotas). Seria uma cena
impressionante, um espetáculo hiperrealista: multidões descendo dos morros e
da periferia carregando milhares de cadáveres como fizeram com o corpo de
Édson. Neste momento, se os mortos falassem, talvez dissessem: “poderíamos
estar aí”. Mas é provável que nem assim esta multidão de garotos negros e
mestiços fosse comover os que insistem que no Brasil o racismo não é um
problema, e que uma política que os distingue pela cor da pele, desta vez
para
ajudá-los a entrar na universidade, e não para serem vidas matáveis, é que
provocaria a violência. Tamanha indiferença aos mortos seria exatamente
porque
os que sobreviveram jamais poderiam repetir a mesma palavra de ordem dos
colegas de Edson Luis em 68; a não ser que gritassem ao pé da janela de
nossa
cordial antropologia anti-cotas: “Mataram um (não) estudante, porque não
podia
(e nem parecia) ser seu filho!”.

[i] Filósofo, Professor Adjunto da UERJ, Doutor em Filosofia (Estética e
Filosofia da Arte), cineasta e roteirista de cinema e TV, membro da rede
universidade nômade.

Em 8 de fevereiro de 2010 20:34, Luiz Felipe Coelho <coelho at if.ufrj.br>escreveu:

>  Oi Leandro
> Fiquei espantado, me pareceu uma proposta influenciada pelo ano eleitoral.
> mas não entendo como! Neoliberal foi a expansão do ensino privado, que vem
> da década de 70, sem o controle efetivo do Estado. Medidas como o Provão ou
> o ENADE são tentativas importantes com defeitos, de retomar esse controle.
> Para mim cotas não são uma medida neoliberal mas sim medida simplista, pois
> não atinge a questão da permanência. A solução emergencial teria, como
> primeira etapa, um quarto ano opcional para todos os alunos do ensino médio,
> aberto para ex-alunos, revendo toda a formação do ensino básico. Esse quarto
> ano de revisão teria que ser organizado de forma mobilizadora, com uma
> ementa bem abrangente e centrada na compreensão de linguagem e de
> matemática, com muitos exercícios e muita leitura. Teria que mobilizar
> professores de ensino médio e universitário e alunos de universidades, e não
> seria um grau pleno! A segunda etapa seria haver bolsa de estudo automática,
> com exigência de bom desempenho acadêmico, para todos os que ingressarem nas
> universidades públicas e que tenham baixa renda.
> Já a solução não emergencial é repensar nosso ensino de graduação
> fortemente expositivo e com carreiras rigidamente definidas, mas isso vem
> sendo discutido desde ao manifesto da Escola Nova, toma décadas. Enquanto
> isso algo tem que ser feito que não seja jogar para a arquibancada.
> Abraços, Felipe
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