[forum-prof] Das paisagens, dos jardins e do ceticismo

Carlos Vainer cvainer at uol.com.br
Wed Aug 19 13:47:13 BRT 2009


Colegas

 

Permitam-me entrar neste interessante debate sobre nossa paisagem.

 

1) De um lado, as queixas quanto ao descuido com a Cidade Universitária são
pertinentes, eu diria mesmo fundamentais. É essencial que superemos isso. Há
estudos mais que abundantes que comprovam a estreita relação entre a
qualidade do trabalho e das relações sociais (sociabilidade, urbanidade,
etc) e qualidade do ambiente – e aqui me refiro desde as condições do
gabinete e sala de aula até o espaço urbano envolvente, no caso em pauta a
Cidade Universitária.

 

Em função disto, é essencial entender que os gastos com o cuidado da
paisagem e do ambiente de trabalho são, na verdade, investimentos na
qualidade do trabalho e na qualidade de vida. São, portanto, essenciais.

 

2) Em segundo lugar, há que fazer a crítica da concepção paisagística que
fundou a concepção urbanística da Cidade Universitária. Concebida segundo os
paradigmas de um urbanismo modernista tropicalizado, desoconheceu nossas
realidades sociais e, também, ecológicas. Ademais, a paisagem foi descolada
do espaço social, não para ser usada mas para ser contemplada. Arrasaram e
aterraram ilhas de uma maneira que jamais seria concebível hoje, destruindo
as bases mesmas da ecologia insular, construindo um espaço totalmente
artificializado e com custos absurdos de manutenção - custos tanto mais
onerosos que a paisagem resultante é de baixa qualidade (pouquíssimas
árvores, pouquíssimos estímulos ao uso do espaço livre). 

 

Em outras palavras, construíram um espaço para ser "contemplado" e não para
ser usado, e a custos altíssimos de manutenção.  

 

3) Esta concepção original e sua implantação, associada ao descaso
tradicional com a manutenção em nossa "cultura administrativa pública",
conduziu e conduz a situações inaceitáveis e, com toda razão, objeto de
questionamento e duras críticas.

 

4) Há porém novidades no horizonte. E é importante ir adiante nesta
discussão, justamente para fortalecer as novas concepções que emergem e os
esforços que começam a ser feitos. Em primeiro lugar, os estudos que vêm
sido desenvolvidos para o Plano Diretor UFRJ 2020 apontam para uma nova
concepção de articulação dos prédios com o espaço aberto. Aqueles que
compareceram à Oficina Temática Cidade Universitária, Cidade Responsável
Ambiental e Energeticamente puderam acompanhar as propostas e projetos em
elaboração e detalhamento para dotar a Ciduni de um novo espaço
paisagístico, associado de uma nova concepção paisagística.

 

      Já no relatório do GT que elaborou a primeira proposta de Diretrizes
para o Plano Diretor esta questão vinha claramente enunciada:

 

O PDNCIDU 2020 parte de uma avaliação do Plano Diretor original, à luz da
crítica contemporânea ao zoneamento horizontal modernista. Assim, deverá
favorecer e estimular a coexistência e interpenetração de usos e atividades
e propiciar adensamento de    usos e usuários. As áreas construídas deverão
combinar o uso econômico e racional do potencial construtivo e a oferta de
recursos paisagísticos e áreas livres.

 

      Embora ausente das Diretrizes aprovadas pelo CONSUNI, esta diretriz
permaneceu orientando os trabalhos do Comitê Técnico do Plano Diretor. Ela
reaparece na proposta preliminar do Plano de Desenvolvimento da Cidade
Univesitária, onde se lê:

 

4.1. O diagnóstico da configuração atual da Cidade Universitária evidencia a
inspiração direta das concepções modernistas prevalecentes nos anos 40 e 50,
marcadamente rodoviaristas e funcionalistas, que acabaram produzindo um
espaço desintegrado, em que se distribuem edificações em lotes generosos,
com pouca ou nenhuma interconexão, separados por grandes espaços com função
meramente paisagística/contemplativa. A ruptura com o paradigma original não
pode desconhecer, porém, o ambiente construído, ponto de partida
inescapável.    

 

Como fazer esta mudança de paradigma? Este o desafio. Não queremos o que
temos, mas é a situação herdade que constitui nosso ponto de partida. Há que
trabalho na direção de um novo paradigma urbanístico e paisagístico. Há que
conceber, projetar e implantar espaços livres como espaços a serem usados -
e não meramente contemplados. Espaços a serem usados para a prática
esportiva, para exposições ao ar livre, para a realização de eventos e
espetáculos, para múltiplas atividades que conferem ao espaço livre e ao
paisagismo uma outra função: integração social.

 

5) Se os gramados são abundantes, as árvores, em contrapartida, são
escassas. Gera-se, assim, um pouco com em Brasília, um espaço aberto
efetivamente "verde", mas árido, sobretudo sob o sol causticante de nossos
pagos. Assim, fazer deste espaço aberto um espaço acolhedor, que possa ser
freqüentado, utilizado, impõe um amplo e vigoroso projeto de arborização.
Este projeto é parte da proposta ora em desenvolvimento no GT Cidade
Universitária - Cidade Ambiental e Energeticamente Responsável.

 

6) É necessário, no programa paisagístico que viermos a definir, contemplar
bem estar, responsabilidade ambiental, beleza e custos adequados, tanto de
implantação quanto de manutenção.

 

7) Há, porém, duas questões que vieram à tona nesta discussão, em alguma
mensagens, que nada têm a ver com paisagismo ou manutenção de espaços
livres, mas que são decisivas no que diz respeito ao conceito mesmo de
Cidade Universitária: 

      

a) deve a Cidade Universitária ser fechada aos não universitários?

 

      b) seremos capazes de fazer no futuro algo diferente do que foi feito
no passado? 

 

8) Sobre a questão do "fechamento" da Ciduni, um de nossos colegas escreve:

 

E fora isto penso que no campus somente deveriam entrar alunos,
funcionarios, professores e convidados, para isto, ter um controle rigido de
todos que ali entram.  Imagino aqueles     professores que estavam dando
aulas e foram assaltados (há alguns anos ocorreu isto). Atualmente qualquer
assaltante entra na Ilha sem sequer lhe ser pedido qualquer documento.
Carros entram todos sem qualquer verificação etc. (Até que tem diminuidos os
assaltos, mas nao sei ate´ quando.)

 

Esta foi a concepção dominante na gestão Vilhena, que começou, inclusive, a
construir um gradeado que nos separaria e, supostamente, protegeria de
"invasores". O conceito de cidade partida e murada levado à prática na
Universidade.

 

As Diretrizes aprovadas pelo CONSUNI, de fato, apontam numa direção
completamente diversa. Ao invés de um campus fechado, concebido quase que
como um "condomínio (universitário) fechado", a diretriz aponta para um
campus urbanizado, integrado e integrador da Cidade, em contato e interação
permanente com a cidade e seu entorno imediato. Uma Cidade Universitária
acolhedora, não apenas para a comunidade universitária, mas também para a
comunidade urbana em sentido lato. Uma Cidade Universitária que se integre a
Cidade, e seja reconhecida, freqüentada e usada pelos citadinos como um
espaço da cidade - espaço cultural (museus, exposições, teatro, cinema,
eventos culturais), espaço esportivo (equipamentos esportivos de uso
coletivo), espaço de lazer (Parque da Orla, quadras, espairecimento).

 

Isto significa, de fato, pensar na qualidade do espaço urbano que será
implantado, o que deve considerar: espaços livres e construídos, trajetos,
equipamentos, usos e usuários múltiplos.

 

Ademais de optar por uma outra concepção acerca do lugar e papel de uma
Universidade Pública na cidade, as Diretrizes aprovadas pelo Consuni vão na
direção oposta ao que seria o "campus de segurança máxima". Na concepção
aprovada, entende-se que a segurança e a sensação de segurança aumentam na
razão direta da densidade de usos e usuários. 

 

9) Sobre as expectativas de mudança, um outro colega escreve:

 

            E, com um pouco mais de esforço, talvez pudesse demonstrar que,
a julgar pelos progressos em tornar aquele lugar minimamente
adequado para o cumprimento de sua missão acadêmica e cultural, a previsão
mais otimista é que as condições mínimas de
habitabilidade, urbanização, transporte, saneamento, etc sejam alcançadas em
2200 (e não em 2020, como se imagina).

Não há nenhuma razão para crer que os avanços serão mais rápidos agora do
que foram nos últimos 50 anos.(ênfase minha)

 

Não creio que seja este tipo de ceticismo, diria mesmo fatalismo, que o
colega transmita a seus jovens alunos. Afinal, se não há expectativa alguma
de que as coisas possam vir a ser diferentes, tampouco há razões para
discutir mudanças, defender idéias e propostas .. a não se como exercício
diletante e irresponsável, digo, inconseqüente.

 

Certamente, o colega tem todo o direito de achar que nada mudará o que aí
está, que nossa herança, mais que herança, é uma realidade incontornável e
insuperável .. assim como a miséria do povo, a desigualdade social, a
violência, etc. Neste caso, não haveria nada a fazer a não ser ... nada
fazer, ou, ainda, lamentar-se sempiternamente de nossa perversa herança e da
incapacidade (quase sempre dos outros, não nossa) de lutar para introduzir
mudanças. 

 

Posição filosófica respeitável, como qualquer outra ... mas da qual discordo
totalmente. E cujas conseqüências políticas são, certamente, catastróficas,
pois implica em uma abdicação total e completa de nossa autonomia ... que é,
em essência, a capacidade e o direito de (auto)determinar os caminhos que
queremos trilhar. 

 

Enfim, temas sempre relevantes. Mas, acreditem, colegas, há muitos que, tão
críticos da situação vigente quanto os que aqui se manifestam, acreditam que
é possível fazer diferente e estão lutando para que nossa Universidade e
nossa Cidade Universitária sejam diferentes no futuro ... no longo prazo,
mas também no médio e curto prazos. Talvez sejam derrotados pela inércia dos
conservadores, pelo desconfiança dos céticos, pela resist6encia daqueles que
vêm na mudança uma ameaça insuportável. Talvez sejam derrotados por seus
próprios erros ... Mas, seja como for, os que acreditamos que vale a pena
esforço, mais que olhar e lamentar a qualidade de nossa grama, estamos
tentando cultivar nosso jardim...

 

Saudações Universitárias

 

Carlos

 

 

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Prof. Carlos Vainer

IPPUR / UFRJ
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Av. Pedro Calmon, 550 - Prédio da Reitoria, s. 533
Cidade Universitária 
21941-590   Rio de Janeiro   RJ
Brasil
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