[forum-prof] O Brasil acabou (e a UFRJ ?)
Prof. Luiz Eduardo
luizeduardo at pharma.ufrj.br
Tue Aug 21 14:11:01 BRT 2007
VEJA
Edição 2022
22 de agosto de 2007
Roberto Pompeu de Toledo
"O Brasil é isso mesmo que está aí"
O terrível parecer, de alguém que conhece o
assunto, reforça uma sensação que paira no ar
Os distraídos talvez ainda não tenham percebido,
mas o Brasil acabou. Sinais disso foram se
acumulando, nos últimos meses: a falência do
Congresso e de outras instituições, a inoperância
do governo, a crise aérea, o geral desarranjo da
infra-estrutura. A esses fatores, evidenciados
por acontecimentos recentes, somam-se outros,
crônicos, como a escola que não ensina, os
hospitais que não curam, a polícia que não
policia, a Justiça que não faz justiça, a
violência, a corrupção, a miséria, as
desigualdades. Se alguma dúvida restasse, ela se
desfaz no parecer autorizado como poucos de um
Fernando Henrique Cardoso, cujas credenciais
somam oito anos de exercício da Presidência da
República a mais de meio século de estudo do
Brasil. "Que ninguém se engane: o Brasil é isso
mesmo que está aí", declara ele, numa reportagem
de João Moreira Salles na revista Piauí.
Ora, direis, como afirmar que o Brasil acabou?
Certo perdeste o senso, pois, se estamos todos
ainda morando, comendo, dormindo, pagando as
contas, indo às compras, nos divertindo,
sofrendo, amando e nos exasperando num lugar
chamado Brasil, é porque ele ainda existe. Eu vos
direi, no entanto, que, quando acaba a esperança,
junto com ela acaba a coisa à qual a esperança se
destinava. É à esperança no Brasil que o
sociólogo-presidente se refere. Para ele, o
Brasil jamais conhecerá um crescimento como o da
China ou o da Índia. "Continuaremos nessa falta
de entusiasmo, nesse desânimo", diz. O
prognóstico é tão mais terrível quanto coincide
com e reforça o sentimento que ultimamente
tomou conta mesmo de quem não é sociólogo nem
nunca conheceu por experiência própria os mecanismos de governo e de poder.
O Brasil que "é isso mesmo" é o das adolescentes
grávidas e dos adolescentes a serviço do tráfico,
das mães que tocam lares sem marido, das
religiões que tomam dinheiro dos fiéis, dos
recordes mundiais de assassinatos e de mortos em
acidentes automobilísticos, dos presos que
comandam de suas células o crime organizado, dos
trabalhadores que gastam três horas para ir e
três horas para voltar do trabalho, das cidades sujas, das ruas esburacadas.
Procura-se o governo e... não há governo. Há
muito que nem o presidente, nem os governadores,
nem os prefeitos mandam. Quem manda é a trindade
formada pelas corporações, máfias e cartéis. Não
há governo que se imponha a corporações como a
dos policiais, ou a dos professores, ou a dos
funcionários das estatais. Não há o que vença as
máfias dos políticos craques em arrancar para
seus apaniguados cargos em que possam distribuir
favores e roubar. Para enfrentar ou,
humildemente, tentar enfrentar cartéis como o
das companhias aéreas, só em época em que elas
estão fragilizadas, como agora. Às vezes os
cartéis se aliam às máfias, em outras se
transmudam nelas. Em outras ainda são as
corporações que, quando não se aliam, se
transformam em máfias. Em todos os casos, o
interesse público, em tese corporificado pelos
governos, não é forte o bastante para dobrar os
fragmentados interesses privados.
A tais males soma-se o cinismo. Não há outra
palavra para descrever o projeto, supostamente de
fidelidade partidária, aprovado na semana passada
na Câmara. O projeto, muito ao contrário de punir
ou coibir os trânsfugas, perdoa-lhes o passado e
garante-lhes o futuro. Quanto ao passado, estão
anistiados os parlamentares que trocaram de
partido e que por isso, no entendimento do
Tribunal Superior Eleitoral, deveriam perder o
mandato. No que concerne ao futuro, o projeto
estabelece que a cada quatro anos os
parlamentares terão folga de um mês na regra da
fidelidade partidária, pois ninguém é de ferro, e
estarão abertos a negócios e oportunidades.
Estamos diante de uma das mais originais
contribuições da imaginação brasileira ao
repertório universal de regras
político-eleitorais. Para concorrer a uma
eleição, o candidato deve estar filiado a um
partido há pelo menos um ano. Mas, segundo o
projeto, no mês que antecede a esse ano de jejum
o candidato pode trocar o partido pelo qual foi
eleito por outro. Como a eleição é sempre em
outubro, esse mês será o setembro do ano
anterior. Eis o Carnaval transferido para
setembro. O projeto é uma esposa compreensiva
que, no Carnaval, libera o marido para a gandaia.
FHC não era tão descrente. No parágrafo final do
livro A Arte da Política, em que rememora os anos
de Presidência, escreveu: "Se houve no passado
recente quem empunhasse a bandeira das reformas,
da democracia e do progresso, não faltará quem
possa olhar para a frente e levar adiante as
transformações necessárias para restabelecer a
confiança em nós mesmos e no futuro desse grande
país". Na reportagem da revista Piauí, ele não
poupa nem seu próprio governo: "No meu governo,
universalizamos o acesso à escola, mas pra quê? O
que se ensina ali é um desastre". Pálidos de
espanto, como no soneto de Bilac, assistimos à
desintegração da esperança na pátria, o que
equivale a dizer que é a pátria mesma que se desintegra aos nossos olhos.
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